sábado, 28 de fevereiro de 2009

Balthasar, Mozart e a questão da Beleza

A preocupação de von Balthasar com a Beleza não era meramente teórica

(penqueno esboço biográfico sobre Hans Urs von Balthasar)



Texto de Mark Freer



Hans Urs von Balthasar tem o hábito de aparecer nos mais inusitados lugares e no fim do ano passado ele apareceu na coluna sobre culinária do Adelaide Review, do padre Ephraem Chiffley, algo entre a codorna grelhada e os tentáculos do polvo, no restaurante Eros, no centro de Adelaide, sul da Austrália: “Está registrado que o teólogo mais erudito deste século, Hans Urs von Balthasar, escapou discretamente de um maçante seminário de teologia, resmungando que ‘não havia mais resquício de eros na teologia’. Eros, o jovem semi-deus, simboliza o amor extático e ávido, humano e divino. Hans está provavelmente certo”.[1]
Hans geralmente esteve certo. O cardeal Henri de Lubac, entre muitos outros, considerou que “esse homem é, provavelmente, o mais culto de nosso tempo. Se há uma cultura cristã, então ela está aqui!”[2]
Von Balthasar – o estudioso ascético, o expoente da Beleza por excelência, o autor extraordinariamente prolífico, que considerava sua obra escrita uma via secundária de seu trabalho pastoral – tem a voz de uma autoridade segura:

Beleza deve ser nossa palavra primeira. Beleza é a última coisa da qual o intelecto pensante ousa se aproximar, uma vez que ela apenas dança em um esplendor incontido ao redor da dupla constelação da Verdade e do Bem na inseparável relação entre elas. Aquela Beleza desinteressada, sem a qual o Mundo Antigo recusou-se a compreender a si próprio, uma palavra que tanto imperceptível como inequivocamente, se despediu do nosso mundo moderno, abandonando-o à sua própria mesquinharia e tristeza.[3]

Sua preocupação com a Beleza não era meramente teórica. O recebimento do prêmio Wolfgang Amadeus Mozart, em Innsbruck, 1987, foi, de acordo com o sobrinho Peter Henrici SJ, a coroação de uma vida cuja paixão secreta havia sido a música. Em seu discurso de agradecimento, Balthasar recorda:

Minha juventude foi marcada pela música. Minha professora de piano era uma velha senhora que havia sido aluna de Clara Schumann. Ela me introduziu ao Romantismo. Enquanto estudante em Viena eu me deliciei ao máximo com os românticos – Wagner, Strauss e especialmente Mahler. Tudo isso chegou a um termo quando tive Mozart pela primeira vez nos ouvidos. Até os dias de hoje ele nunca mais abandonou esses ouvidos. Em minha idade mais avançada Bach e Schubert tornaram-se preciosos para mim. Mas Mozart permaneceu sendo a estrela polar inamovível ao redor da qual os outros dois circulavam (A Ursa Maior e as Ursas Menores).[4]

Em Basel, os estudantes experimentaram “inesquecíveis... noites nos cursos de treinamento, em que ele sentava-se ao piano e tocava, de cor, o Don Giovanni, de Mozart;[5] mais tarde ele doou o seu estéreo pois conhecia todos os trabalhos de Mozart de cor (e, provavelmente, preferia suas próprias interpretações). “Nada será capaz de me separar de Mozart e das mais elevadas criações de Haydn, pela experiência sempre renovada e terrível de que há coisas belas demais para o nosso mundo”[6]. Sua monografia “O Trio do adeus” (da Flauta Mágica) é sublime como a música.


A nobreza desse gênio é tão exclusiva que ele exclui tudo o que é comum abrangendo em seu interior tudo o que pertence ao mundo. Para nascer não é necessário um pomposo teatro wagneriano mas justamente as barraquinhas de madeira vienenses, o paraíso do teatro de bonecas e da mágica de troça em cujas formas e roupas penetra neste mundo. Como tudo o que é realmente grandioso, está à disposição de todos, sem um mínimo de má vontade – uma vez que sabe que todo o grandioso quase automaticamente permanece esotérico, enquanto ela não necessita da mágica artificial e falsa de um ‘círculo de iniciados’ – e dá risada enquanto derrama sobre os espectadores toda uma gama de piadas práticas, dá à criança a sua primeira peça de piano, e canta sua canção predileta até mesmo ao ouvido mais tedioso, sopra canções populares como flores do campo para o interior da guirlanda e pode – como a sabedoria divina – satisfazer toda classe social, em cada degrau da escada com uma simples flor do seu buquê. Aquilo que penetra prazerosamente nos ouvidos superficiais de quem ouve pela primeira vez arranca lágrimas, como em um inexplicável milagre da beleza, ao verdadeiro amante, ainda que a escute pela milésima vez.[7]

O campo de ação original de von Balthasar era a literatura alemã, e para seu doutorado – recebido summa cum laude – ele acabou lendo, simplesmente, toda a literatura alemã moderna. Seus estudos gravitaram, então, em direção à teologia:


Bem, assim como fui levado, enquanto criança, a capinar por cima de todos os arbustos da música romântica, de Mendelsohn, via Strauss, até Mahler e Schönberg, antes que me fosse permitido ver ascendendo, atrás destes, as eternas estrelas de Bach e Mozart – e então, por um longo tempo, esses dois tomaram o lugar dos outros umas cem vezes mais – assim também tive de fazer minha trilha pela selva da literatura moderna, em Viena, Berlim e Zurique, até que finalmente a mão carinhosa de Deus me agarrou... e me escolheu para uma vida verdadeira. Mas aqui também, novamente, tudo foi diferente; tive que começar do começo, e devorar todas as infinitas distâncias da literatura espiritual, assim como devorar a montanha de pastos para chegar à terra de leite e mel (e a montanha era tão doce quanto árida) até que, gradualmente, no curso dos estudos teológicos, viessem os verdadeiros encontros.[8]

Um encontro que marcou profundamente a trajetória de von Balthasar foi aquele com Adrienne von Speyer, que se tornou uma personagem central de toda essa história. Von Speyer (1902-1967) foi a primeira mulher na Suíça a ser admitida no serviço médico. Balthasar descreve:

Ela estava decidida, desde a tenra idade, a se tornar médica, assim como seu pai. Realizou isso com determinação férrea, a despeito de todas as objeções da família, e pagou seus próprios estudos médicos lecionando. Apenas uma tentação a perturbava de tempos em tempos: estudar teologia, para assim poder aprender mais sobre Deus. Todos os seus estudos e práticas médicos eram vistos como atos de obediência a Deus. Havia mais um fator importante: seu amor à música. Na Töchterschule em Basel teve aulas com o famoso maestro Münch e tinha de praticar diariamente por três horas. Durante os tempos difíceis, rejeitada pela família e sentindo-se bastante solitária, “tocar música ocupava uma parte ainda maior da minha vida. De certa forma eu me deleitava com a música e esperava, com ela, chegar até Deus... e assim poder me entregar a Ele sem reservas”. Com o tempo, percebeu que não podia levar as duas – música e medicina... “Decidi, então, sacrificar a música pelo bem de meus futuros pacientes. Pensei que isso me possibilitaria chegar mais próximo deles, que seria melhor se me aproximasse deles já com uma renúncia por trás de mim”.[9]

E também esse impressionante esboço:


Ela era marcada pelo humor e iniciativa. Como o garoto no conto de fadas que se prepara para experimentar o medo. Por insistência de sua mãe, teve de deixar os estudos secundários, mas secretamente estudou grego à luz de velas, para não ficar atrás dos outros. Em Leysin estudou russo. Após se transferir para a escola secundária, em Basel, aprendeu alemão rapidamente e ainda fez um curso relâmpago de inglês para não ficar atrasada em relação aos colegas de classe. Como falei antes, pagou seus estudos médicos dando aulas particulares. E havia, também, a sua prontidão em lutar pela justiça. Quando um professor atingiu um aluno no rosto com uma régua ela o enfrentou na frente de toda a turma e gritou: “Vocês querem ver um covarde? Aqui está um!”. Em uma ocasião, na sala de palestras, um residente deu uma injeção em um paciente que o matou de imediato. O residente acusou falsamente uma enfermeira e foi defendido pelo professor. Adrienne conseguiu organizar um boicote às aulas desse professor que acabou por forçá-lo a ir para outro universidade. Foi precisamente essa coragem, que ela manteve diante da dor física mais extrema, que a fez ir enfrentar, após sua conversão, década após década, todo tipo de sofrimento físico e espiritual, especialmente a agonia de Cristo no Getsêmani e na Cruz. Na verdade, quando se deu conta do significado daquilo para a reconciliação do mundo, pedia-o constantemente.[10]


Ele a recebeu na Igreja, e trabalharam em estreita colaboração por 27 anos, 15 dos quais morando sob o mesmo teto (e, claro, havia comentários maldosos). Ela foi co-fundadora da Comunidade de São João. Balthasar considerava sua obra bem mais significante do que a dele própria:

A maior parte do que escrevi é uma tradução daquilo que está presente, de forma mais imediata e menos técnica, na poderosa obra de Adrienne von Speyer... A riqueza ali contida só será reconhecida em tempos mais maduros.[11]

Ele era seu redator, mas:

Ela estava tão exaurida a partir de 1950 que eu raramente pedia que fizesse algum ditado. Uma vez que suas obras contavam mais de 60 por volta de 1953, achei que um limite havia sido alcançado, mesmo do ponto de vista do quanto poderia ser lido, e eu mesmo havia acumulado tanto material estenográfico quanto podia manusear. Para Adrienne, que penetrava de forma cada vez mais profunda nas verdades divinas, esse resumo que impus era inibidor, realmente desapontador. Sua produtividade espiritual não conhecia limites: nós poderíamos perfeitamente ter duas ou três vezes mais textos de sua autoria hoje.
De meados dos anos 50 em diante sua fraqueza era tão grande que era sempre obrigatório considerar-se que podia vir a falecer a qualquer momento; nenhum médico conseguia explicar de que forma continuava viva. De um ano para o outro a convicção crescia: o absoluto fundo do poço da resistência humana havia sido atingido. Mas esse ponto era sempre ainda mais rebaixado a novas profundidades... Era um diminuendo inconcebivelmente prolongado, tornando-se cada vez mais suave ainda. Um morrer no mais lento de uma câmera lenta. Ela estava feliz com isso e agradecida, pois assim podia dar mais do que seria possível de outro modo.
[12]

Muito mais deve ser dito sobre essa história inefavelmente bela, esse conto de fadas tornado realidade como fruto da obediência. Poder-se-ia discutir os vários carismas – as bilocações freqüentes e exaustivas, os estigmas, as curas em suas cirurgias, inclusive milhares de crianças salvas do aborto – mas para provar um pudim deve-se comê-lo. Não provar significa testar, e testar será a mesma coisa? Tome-se, por exemplo, a eficácia completamente pessoal dos textos, aludida por von Balthasar em sua introdução aos trabalhos póstumos de Adrienne:

Assim como nas grandes missões eclesiais, os temas abordados são sempre respostas orientadoras do Paraíso para questões abertas da nossa época, respostas que a época provavelmente não esperava (do contrário tê-las-ia descoberto por si mesma), que possivelmente não quer ouvir, mas que – preparadas para uma conversio, que sempre implica um esforço de penitência – ajudam muito mais profundamente que as soluções superficiais remendadas umas nas outras.[13]

O primeiro desses trabalhos póstumos, O livro de todos os santos, contém centenas de “retratos de oração” místicos, na maior parte de santos canonizados, mas também de alguns artistas e filósofos. Mozart está lá. Durante uma oração em comum, o diretor espiritual e confessor de Adrienne pergunta gentilmente:

(Você pode ver Mozart?) Sim, eu o vejo. (Ela sorri).
(Ele tem uma oração?) Sim, eu o vejo rezando. Eu o vejo rezando algo, talvez um Pai-Nosso. Palavras simples, aprendidas na infância, que ele pronuncia cuidadosamente pois está falando com Deus. E então ele se levanta diante de Deus como uma criança, que traz tudo para o seu pai: pedrinhas da rua, raminhos especiais e folhinhas de grama, e certa vez uma joaninha, e junto dele todas essas coisas são melodias. Melodias que ele traz para o Senhor amado, e que ele descobre de repente, em oração. E quando não está rezando, ajoelhado e de mãos postas, está sentado ao piano, tocando ou cantando de uma maneira incrivelmente semelhante à de uma criança, e não se consegue saber com precisão: é ele que está tocando algo para o Senhor amado ou é o Senhor que o está usando para tocar algo para si mesmo e para ele ao mesmo tempo? Há um grande diálogo entre Mozart e o Senhor amado que é como a mais pura oração, e esse diálogo é apenas música.
(E como as pessoas se encaixam?) Ele adora as pessoas. Recua diante delas e as ama ao mesmo tempo. Recua diante delas como as crianças que recuam diante de uma outra criança mais forte, que pode quebrar seus brinquedos; mas Mozart está mais preocupado com os brinquedos do Senhor do que consigo mesmo. E ama as pessoas porque elas são criaturas do Senhor, e está feliz por fazê-las se deliciar com sua música. E, à sua maneira, gostaria de colocar a questão de Deus diante delas, em suas peças mais alegres.
(Com a sua arte, ela não acaba por se distanciar delas?) Não. Certamente, em algumas ocasiões a arte, de certo modo, tem a precedência. Mas permanece fechada em Deus. É como se ele tivesse um último pacto com o Senhor amado.
(E a melancolia?) Há lugar para isso, também. Porque ele sabe que o Senhor está igualmente junto aos tristes e deprimidos, e que é difícil carregar o fardo do mundo, e ele por vezes sente como se houvesse um grande peso sobre sua alma; então conduz tudo à sua música, sente o dever de apontar tudo o que diz respeito a Deus e aos homens através de sua música.
(E D.Giovanni?) Quando ele descreve o orgulho, não está incluído; ele não participa. Quando descreve a sensualidade, participa um pouquinho, pois obviamente a sensualidade está sempre por perto. Mas mesmo a sua sensualidade é tão infantil que nunca se torna algo ruim de fato.
[14]

Padre Hans Urs von Balthasar faleceu enquanto se preparava para rezar a missa matinal, na manhã de 26 de junho de 1988, dois dias antes de ser elevado ao cardinalato. Já havia ido a Roma fazer as medidas de sua roupa de cardeal. O cardeal Joseph Ratzinger afirmou, durante a homilia dos ritos fúnebres em Lucerna, que aquilo que o papa quis expressar, por meio dessa distinção e honra (o cardinalato), permanecia válido: não apenas indivíduos, mas a própria Igreja, em sua autoridade oficial, nos confirma que ele (von Balthasar) está certo naquilo que ensina sobre a fé, que ele aponta o caminho para as fontes de água viva – um testemunho ao mundo que nos ensina Cristo, que nos ensina a viver[15].
Nos Estados Unidos, a melhor fonte para mais informações é a Ignatius Press, fundada especificamente para a divulgação das obras de von Balthasar, Adrienne von Speyer e Henri de Lubac. Os trabalhos de Adrienne, como Confession, Handmaid of the Lord, The World of Prayer e The Christian State of the Life, junto com seu comentário em quatro volumes sobre o Evangelho de S. João, seriam um bom lugar para começar.
[1] Fr Ephraem Chiffley OP, “The cracking of tiny bones”, The Adelaide Review, novembro de 1999, p. 42ss.
[2] Cardeal Henri de Lubac SJ, “Wittnes of Christ in the Church”, Hans Urs von Balthasar: his life and work, David L. Schindler (org.), Ignatius, San Francisco, 1991, p. 272.
[3] Herrlichkeit: ein theologik Aesthetik, v. 1: Die Schau der Gestalt. Johannes-Verlag, p.16.
[4] Fr Peter Henrici SJ, “A sketch of von Balthasar’s life”, in Schindler, op. cit., p. 36.
[5] Ibid., 16.
[6] My work: in Retrospect. Ignatius, 1993, p. 42.
[7] “The Farewell Trio”, Explorations on Theology, p. 523ss.
[8] My Work: in Retrospect, p. 10.
[9] Our Task, Ignatius, 1994, 27ss.
[10] Ibid, 32ss.
[11] My Work: in retrospect, p. 105.
[12] First glance at Adrienne von Speyer. Ignatius, 1981, p. 44ss.
[13] Das Allerheiligerbuch (não publicado, copyright Johannes-Verlag).
[14] Ibid.
[15] Cardeal Joseph Ratzinger, “Homilia na liturgia funeral de Hans Urs von Balthasar”, Schindler, op. cit., p. 295.

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