Hans Urs von Balthasar
O cristianismo e as grandes religiões
Uma análise
O espaço aqui oferecido é demasiado estreito para um tratamento profundo do tema; deverá ser útil, ao menos, para detectarmos o abuso que consiste na colocação, lado a lado, das assim chamadas “grandes religiões”, como conjuntos de igual valor, a partir do qual se poderia, dependendo do gosto, gerar um interesse por alguma delas e a ela se dedicar.
A religião prevalece no momento em que a pessoa sabe que deve ser grata, em última instância, por sua própria existência. A quem (por distração) isso não ocorre, ou quem (devido aos aspectos tenebrosos do mundo) pensa não poder fazê-lo é levado à revolta contra Deus (que, no fim das contas, é um contra-senso se Deus, o Bem absoluto, existir) ou ao ateísmo, que não permite nenhuma interpretação do sentido da existência pessoal e se desvia da esfera da religião; este último será tratado em uma outra contribuição desta série.
Procuraremos caminhar, em três estágios, do geral ao particular para, finalmente, questionarmos sobre a possibilidade de uma convergência das religiões e de sua integração.
1. Os dois hemisférios
No mundo atual mostram-se claramente dois âmbitos religiosos: o hemisfério ocidental é marcado pela religião da revelação: judaísmo, cristianismo e (descendente de ambos) islamismo: aqui predomina a idéia de um Deus livre e pessoal, que inventou o mundo real sem qualquer necessidade e o tornou existente como aquilo diferente de Si mesmo e que, no entanto, traz o carimbo de sua origem, o caráter de “imagem de Deus”. Ao lado disso, o mundo oriental é dominado pela apresentação de uma Divindade impessoal em todas as variedades de sua religiosidade,[1] o Fundamento original que, enquanto tal, “aparece” na pluralidade de todo modo irreal do mundo, mas que deve ser buscado além da aparência obscurecedora. Abstraindo-se das assim chamadas “religiões primitivas” e daqueles sem-religião, permanecem os dois blocos lado a lado, com mais de um bilhão de adeptos cada.
A diferença está em que no Ocidente o homem religioso encontra uma revelação de Deus, que entrou na história, enquanto no Oriente não acontece assim: aqui o movimento parte essencialmente do homem religioso em direção ao Absoluto-Divino (mesmo quando alguém especialmente iluminado, como Buda ou Lao-tsé, encontra o caminho e o conhece). Porém, o comum é que a pessoa se perceba a si mesma como no mais íntimo relacionamento com Deus (ou com o Absoluto): se ela se entende, então, (ocidentalmente) como “imagem” de Deus ou (orientalmente) principalmente como “forma ilusória” oculta, distanciada do Absoluto.
Essa generalização é de fundamental importância. O ser humano, em sua individualidade, sente-se elementarmente lançado (re-ligio) de volta ao fundamento primeiro de sua origem, e a realização desse relacionamento (na contemplação interior, como na ação exterior) provoca-o, antes de tudo, em sua “verdade”. “Ser-imagem” ou “ser-aparência” são, portanto, apenas o ponto de partida de um movimento, de uma transcendência. Os Padres da Igreja haviam expressado isso classicamente, na medida que explicavam de tal modo as afirmações do início da bíblia, de que os homens haviam sido “criados à imagem e (ou para a) semelhança de Deus (Gn 1,26), que a “imagem” seria a natureza criada do ser humano, que deveria se purificar e aperfeiçoar – por um esforço consciente e pela graça de Deus, no sentido inverso – rumo a uma “adaptação” aproximadora da imagem original, que é Deus. Algo análogo vale em todas as formas da religião oriental: também aqui o homem deve “transcender” sua essência natural, na qual se encontra, para alcançar sua verdade própria. Em ambos os hemisférios vale a “imagem”, aquela que o homem é como algo que deve ser trabalhado de forma unitária, para que assim a adaptação se realize gradualmente: o homem quer ser, inicialmente, apenas aquilo que ele encontra, apega-se egoistamente à sua forma aparente, não quer se obrigar ou o faz apenas de má vontade ou superficialmente; ele deve se “superar”, para alcançar um amor abnegado e preferencial de seu modelo divino.
Aqui, porém, surge novamente, e com mais força, a diferença. No Ocidente, onde Deus é reconhecido como um Criador livre, o eu de cada indivíduo é um eu desejado por Deus, um próximo amado, o “altruísmo” do amor significa, aqui, com efeito, que devo lutar para vencer o egoísmo do meu eu através de um amor abnegado a Deus, a meus semelhantes e a mim mesmo – e não sem a ajuda da graça divina. No Oriente, ao contrário, o eu individual é apenas a aparência de um fundamento divino (ou “Eu”); “altruísmo” significa, então, abandonar a própria individualidade aparente, para viver a partir do núcleo da verdade, no qual todos os indivíduos são idênticos. Está em jogo, em ambos os hemisférios, o “altruísmo”, e em ambos, porque Deus é, respectivamente, o Absoluto “altruísta”, mas o sentido correspondente à Sua apresentação é diferente: no Ocidente a pessoa (que permanece pessoa) dever ser abnegada porque Deus, sem qualquer necessidade, por um amor abnegado, criou o mundo e a mim mesmo; no Oriente o indivíduo deve renunciar a ser si-mesmo porque a Divindade é sem-eu.[2] O amor abnegado ocidental (sobretudo o “agapē” cristão) ama a Deus
[1] Como o brahmanismo, hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo e xintoísmo. As religiões antigas e extintas deverão permanecer fora de nossa análise.
[2] É preciso cuidado diante das ambíguas formas mistas. Pode-se afirmar, a partir daí , no Ocidente, que o caminho para o interior vai de um eu superficial para a profundeza de si mesmo: a questão é se esse “si-mesmo” é o núcleo da pessoa criada (e, assim, tudo bem!) ou é idêntico ao fundamento divino (e assim estaremos no âmbito oriental). Pode-se, mais além, afirmar no Ocidente que o núcleo mais íntimo da pessoa criada é divino e deve-se identificar com ele. A questão é se com esse núcleo queremos falar da “idéia” divina, que Deus teve de mim como uma pessoa criada, desde a eternidade: a ela eu devo tratar de corresponder; tonar-se ela é impossível, pois a idéia é idêntica a Deus, o eu enquanto criatura nunca poderá ser. Finalmente, pode-se imaginar no cristianismo uma assimilação pelo Filho eternamente gerado a partir do Pai, “no qual todas as coisas foram criadas”; mas nenhuma assimilação, “incorporada” ao Filho pela graça de Deus, pode se identificar diretamente com ele, enquanto princípio incorporador (heresia do isocristismo). Para todos esses três níveis é necessário – especialmente hoje – o sóbrio dom do discernimento.
sábado, 21 de fevereiro de 2009
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