sábado, 28 de fevereiro de 2009

Balthasar, Mozart e a questão da Beleza

A preocupação de von Balthasar com a Beleza não era meramente teórica

(penqueno esboço biográfico sobre Hans Urs von Balthasar)



Texto de Mark Freer



Hans Urs von Balthasar tem o hábito de aparecer nos mais inusitados lugares e no fim do ano passado ele apareceu na coluna sobre culinária do Adelaide Review, do padre Ephraem Chiffley, algo entre a codorna grelhada e os tentáculos do polvo, no restaurante Eros, no centro de Adelaide, sul da Austrália: “Está registrado que o teólogo mais erudito deste século, Hans Urs von Balthasar, escapou discretamente de um maçante seminário de teologia, resmungando que ‘não havia mais resquício de eros na teologia’. Eros, o jovem semi-deus, simboliza o amor extático e ávido, humano e divino. Hans está provavelmente certo”.[1]
Hans geralmente esteve certo. O cardeal Henri de Lubac, entre muitos outros, considerou que “esse homem é, provavelmente, o mais culto de nosso tempo. Se há uma cultura cristã, então ela está aqui!”[2]
Von Balthasar – o estudioso ascético, o expoente da Beleza por excelência, o autor extraordinariamente prolífico, que considerava sua obra escrita uma via secundária de seu trabalho pastoral – tem a voz de uma autoridade segura:

Beleza deve ser nossa palavra primeira. Beleza é a última coisa da qual o intelecto pensante ousa se aproximar, uma vez que ela apenas dança em um esplendor incontido ao redor da dupla constelação da Verdade e do Bem na inseparável relação entre elas. Aquela Beleza desinteressada, sem a qual o Mundo Antigo recusou-se a compreender a si próprio, uma palavra que tanto imperceptível como inequivocamente, se despediu do nosso mundo moderno, abandonando-o à sua própria mesquinharia e tristeza.[3]

Sua preocupação com a Beleza não era meramente teórica. O recebimento do prêmio Wolfgang Amadeus Mozart, em Innsbruck, 1987, foi, de acordo com o sobrinho Peter Henrici SJ, a coroação de uma vida cuja paixão secreta havia sido a música. Em seu discurso de agradecimento, Balthasar recorda:

Minha juventude foi marcada pela música. Minha professora de piano era uma velha senhora que havia sido aluna de Clara Schumann. Ela me introduziu ao Romantismo. Enquanto estudante em Viena eu me deliciei ao máximo com os românticos – Wagner, Strauss e especialmente Mahler. Tudo isso chegou a um termo quando tive Mozart pela primeira vez nos ouvidos. Até os dias de hoje ele nunca mais abandonou esses ouvidos. Em minha idade mais avançada Bach e Schubert tornaram-se preciosos para mim. Mas Mozart permaneceu sendo a estrela polar inamovível ao redor da qual os outros dois circulavam (A Ursa Maior e as Ursas Menores).[4]

Em Basel, os estudantes experimentaram “inesquecíveis... noites nos cursos de treinamento, em que ele sentava-se ao piano e tocava, de cor, o Don Giovanni, de Mozart;[5] mais tarde ele doou o seu estéreo pois conhecia todos os trabalhos de Mozart de cor (e, provavelmente, preferia suas próprias interpretações). “Nada será capaz de me separar de Mozart e das mais elevadas criações de Haydn, pela experiência sempre renovada e terrível de que há coisas belas demais para o nosso mundo”[6]. Sua monografia “O Trio do adeus” (da Flauta Mágica) é sublime como a música.


A nobreza desse gênio é tão exclusiva que ele exclui tudo o que é comum abrangendo em seu interior tudo o que pertence ao mundo. Para nascer não é necessário um pomposo teatro wagneriano mas justamente as barraquinhas de madeira vienenses, o paraíso do teatro de bonecas e da mágica de troça em cujas formas e roupas penetra neste mundo. Como tudo o que é realmente grandioso, está à disposição de todos, sem um mínimo de má vontade – uma vez que sabe que todo o grandioso quase automaticamente permanece esotérico, enquanto ela não necessita da mágica artificial e falsa de um ‘círculo de iniciados’ – e dá risada enquanto derrama sobre os espectadores toda uma gama de piadas práticas, dá à criança a sua primeira peça de piano, e canta sua canção predileta até mesmo ao ouvido mais tedioso, sopra canções populares como flores do campo para o interior da guirlanda e pode – como a sabedoria divina – satisfazer toda classe social, em cada degrau da escada com uma simples flor do seu buquê. Aquilo que penetra prazerosamente nos ouvidos superficiais de quem ouve pela primeira vez arranca lágrimas, como em um inexplicável milagre da beleza, ao verdadeiro amante, ainda que a escute pela milésima vez.[7]

O campo de ação original de von Balthasar era a literatura alemã, e para seu doutorado – recebido summa cum laude – ele acabou lendo, simplesmente, toda a literatura alemã moderna. Seus estudos gravitaram, então, em direção à teologia:


Bem, assim como fui levado, enquanto criança, a capinar por cima de todos os arbustos da música romântica, de Mendelsohn, via Strauss, até Mahler e Schönberg, antes que me fosse permitido ver ascendendo, atrás destes, as eternas estrelas de Bach e Mozart – e então, por um longo tempo, esses dois tomaram o lugar dos outros umas cem vezes mais – assim também tive de fazer minha trilha pela selva da literatura moderna, em Viena, Berlim e Zurique, até que finalmente a mão carinhosa de Deus me agarrou... e me escolheu para uma vida verdadeira. Mas aqui também, novamente, tudo foi diferente; tive que começar do começo, e devorar todas as infinitas distâncias da literatura espiritual, assim como devorar a montanha de pastos para chegar à terra de leite e mel (e a montanha era tão doce quanto árida) até que, gradualmente, no curso dos estudos teológicos, viessem os verdadeiros encontros.[8]

Um encontro que marcou profundamente a trajetória de von Balthasar foi aquele com Adrienne von Speyer, que se tornou uma personagem central de toda essa história. Von Speyer (1902-1967) foi a primeira mulher na Suíça a ser admitida no serviço médico. Balthasar descreve:

Ela estava decidida, desde a tenra idade, a se tornar médica, assim como seu pai. Realizou isso com determinação férrea, a despeito de todas as objeções da família, e pagou seus próprios estudos médicos lecionando. Apenas uma tentação a perturbava de tempos em tempos: estudar teologia, para assim poder aprender mais sobre Deus. Todos os seus estudos e práticas médicos eram vistos como atos de obediência a Deus. Havia mais um fator importante: seu amor à música. Na Töchterschule em Basel teve aulas com o famoso maestro Münch e tinha de praticar diariamente por três horas. Durante os tempos difíceis, rejeitada pela família e sentindo-se bastante solitária, “tocar música ocupava uma parte ainda maior da minha vida. De certa forma eu me deleitava com a música e esperava, com ela, chegar até Deus... e assim poder me entregar a Ele sem reservas”. Com o tempo, percebeu que não podia levar as duas – música e medicina... “Decidi, então, sacrificar a música pelo bem de meus futuros pacientes. Pensei que isso me possibilitaria chegar mais próximo deles, que seria melhor se me aproximasse deles já com uma renúncia por trás de mim”.[9]

E também esse impressionante esboço:


Ela era marcada pelo humor e iniciativa. Como o garoto no conto de fadas que se prepara para experimentar o medo. Por insistência de sua mãe, teve de deixar os estudos secundários, mas secretamente estudou grego à luz de velas, para não ficar atrás dos outros. Em Leysin estudou russo. Após se transferir para a escola secundária, em Basel, aprendeu alemão rapidamente e ainda fez um curso relâmpago de inglês para não ficar atrasada em relação aos colegas de classe. Como falei antes, pagou seus estudos médicos dando aulas particulares. E havia, também, a sua prontidão em lutar pela justiça. Quando um professor atingiu um aluno no rosto com uma régua ela o enfrentou na frente de toda a turma e gritou: “Vocês querem ver um covarde? Aqui está um!”. Em uma ocasião, na sala de palestras, um residente deu uma injeção em um paciente que o matou de imediato. O residente acusou falsamente uma enfermeira e foi defendido pelo professor. Adrienne conseguiu organizar um boicote às aulas desse professor que acabou por forçá-lo a ir para outro universidade. Foi precisamente essa coragem, que ela manteve diante da dor física mais extrema, que a fez ir enfrentar, após sua conversão, década após década, todo tipo de sofrimento físico e espiritual, especialmente a agonia de Cristo no Getsêmani e na Cruz. Na verdade, quando se deu conta do significado daquilo para a reconciliação do mundo, pedia-o constantemente.[10]


Ele a recebeu na Igreja, e trabalharam em estreita colaboração por 27 anos, 15 dos quais morando sob o mesmo teto (e, claro, havia comentários maldosos). Ela foi co-fundadora da Comunidade de São João. Balthasar considerava sua obra bem mais significante do que a dele própria:

A maior parte do que escrevi é uma tradução daquilo que está presente, de forma mais imediata e menos técnica, na poderosa obra de Adrienne von Speyer... A riqueza ali contida só será reconhecida em tempos mais maduros.[11]

Ele era seu redator, mas:

Ela estava tão exaurida a partir de 1950 que eu raramente pedia que fizesse algum ditado. Uma vez que suas obras contavam mais de 60 por volta de 1953, achei que um limite havia sido alcançado, mesmo do ponto de vista do quanto poderia ser lido, e eu mesmo havia acumulado tanto material estenográfico quanto podia manusear. Para Adrienne, que penetrava de forma cada vez mais profunda nas verdades divinas, esse resumo que impus era inibidor, realmente desapontador. Sua produtividade espiritual não conhecia limites: nós poderíamos perfeitamente ter duas ou três vezes mais textos de sua autoria hoje.
De meados dos anos 50 em diante sua fraqueza era tão grande que era sempre obrigatório considerar-se que podia vir a falecer a qualquer momento; nenhum médico conseguia explicar de que forma continuava viva. De um ano para o outro a convicção crescia: o absoluto fundo do poço da resistência humana havia sido atingido. Mas esse ponto era sempre ainda mais rebaixado a novas profundidades... Era um diminuendo inconcebivelmente prolongado, tornando-se cada vez mais suave ainda. Um morrer no mais lento de uma câmera lenta. Ela estava feliz com isso e agradecida, pois assim podia dar mais do que seria possível de outro modo.
[12]

Muito mais deve ser dito sobre essa história inefavelmente bela, esse conto de fadas tornado realidade como fruto da obediência. Poder-se-ia discutir os vários carismas – as bilocações freqüentes e exaustivas, os estigmas, as curas em suas cirurgias, inclusive milhares de crianças salvas do aborto – mas para provar um pudim deve-se comê-lo. Não provar significa testar, e testar será a mesma coisa? Tome-se, por exemplo, a eficácia completamente pessoal dos textos, aludida por von Balthasar em sua introdução aos trabalhos póstumos de Adrienne:

Assim como nas grandes missões eclesiais, os temas abordados são sempre respostas orientadoras do Paraíso para questões abertas da nossa época, respostas que a época provavelmente não esperava (do contrário tê-las-ia descoberto por si mesma), que possivelmente não quer ouvir, mas que – preparadas para uma conversio, que sempre implica um esforço de penitência – ajudam muito mais profundamente que as soluções superficiais remendadas umas nas outras.[13]

O primeiro desses trabalhos póstumos, O livro de todos os santos, contém centenas de “retratos de oração” místicos, na maior parte de santos canonizados, mas também de alguns artistas e filósofos. Mozart está lá. Durante uma oração em comum, o diretor espiritual e confessor de Adrienne pergunta gentilmente:

(Você pode ver Mozart?) Sim, eu o vejo. (Ela sorri).
(Ele tem uma oração?) Sim, eu o vejo rezando. Eu o vejo rezando algo, talvez um Pai-Nosso. Palavras simples, aprendidas na infância, que ele pronuncia cuidadosamente pois está falando com Deus. E então ele se levanta diante de Deus como uma criança, que traz tudo para o seu pai: pedrinhas da rua, raminhos especiais e folhinhas de grama, e certa vez uma joaninha, e junto dele todas essas coisas são melodias. Melodias que ele traz para o Senhor amado, e que ele descobre de repente, em oração. E quando não está rezando, ajoelhado e de mãos postas, está sentado ao piano, tocando ou cantando de uma maneira incrivelmente semelhante à de uma criança, e não se consegue saber com precisão: é ele que está tocando algo para o Senhor amado ou é o Senhor que o está usando para tocar algo para si mesmo e para ele ao mesmo tempo? Há um grande diálogo entre Mozart e o Senhor amado que é como a mais pura oração, e esse diálogo é apenas música.
(E como as pessoas se encaixam?) Ele adora as pessoas. Recua diante delas e as ama ao mesmo tempo. Recua diante delas como as crianças que recuam diante de uma outra criança mais forte, que pode quebrar seus brinquedos; mas Mozart está mais preocupado com os brinquedos do Senhor do que consigo mesmo. E ama as pessoas porque elas são criaturas do Senhor, e está feliz por fazê-las se deliciar com sua música. E, à sua maneira, gostaria de colocar a questão de Deus diante delas, em suas peças mais alegres.
(Com a sua arte, ela não acaba por se distanciar delas?) Não. Certamente, em algumas ocasiões a arte, de certo modo, tem a precedência. Mas permanece fechada em Deus. É como se ele tivesse um último pacto com o Senhor amado.
(E a melancolia?) Há lugar para isso, também. Porque ele sabe que o Senhor está igualmente junto aos tristes e deprimidos, e que é difícil carregar o fardo do mundo, e ele por vezes sente como se houvesse um grande peso sobre sua alma; então conduz tudo à sua música, sente o dever de apontar tudo o que diz respeito a Deus e aos homens através de sua música.
(E D.Giovanni?) Quando ele descreve o orgulho, não está incluído; ele não participa. Quando descreve a sensualidade, participa um pouquinho, pois obviamente a sensualidade está sempre por perto. Mas mesmo a sua sensualidade é tão infantil que nunca se torna algo ruim de fato.
[14]

Padre Hans Urs von Balthasar faleceu enquanto se preparava para rezar a missa matinal, na manhã de 26 de junho de 1988, dois dias antes de ser elevado ao cardinalato. Já havia ido a Roma fazer as medidas de sua roupa de cardeal. O cardeal Joseph Ratzinger afirmou, durante a homilia dos ritos fúnebres em Lucerna, que aquilo que o papa quis expressar, por meio dessa distinção e honra (o cardinalato), permanecia válido: não apenas indivíduos, mas a própria Igreja, em sua autoridade oficial, nos confirma que ele (von Balthasar) está certo naquilo que ensina sobre a fé, que ele aponta o caminho para as fontes de água viva – um testemunho ao mundo que nos ensina Cristo, que nos ensina a viver[15].
Nos Estados Unidos, a melhor fonte para mais informações é a Ignatius Press, fundada especificamente para a divulgação das obras de von Balthasar, Adrienne von Speyer e Henri de Lubac. Os trabalhos de Adrienne, como Confession, Handmaid of the Lord, The World of Prayer e The Christian State of the Life, junto com seu comentário em quatro volumes sobre o Evangelho de S. João, seriam um bom lugar para começar.
[1] Fr Ephraem Chiffley OP, “The cracking of tiny bones”, The Adelaide Review, novembro de 1999, p. 42ss.
[2] Cardeal Henri de Lubac SJ, “Wittnes of Christ in the Church”, Hans Urs von Balthasar: his life and work, David L. Schindler (org.), Ignatius, San Francisco, 1991, p. 272.
[3] Herrlichkeit: ein theologik Aesthetik, v. 1: Die Schau der Gestalt. Johannes-Verlag, p.16.
[4] Fr Peter Henrici SJ, “A sketch of von Balthasar’s life”, in Schindler, op. cit., p. 36.
[5] Ibid., 16.
[6] My work: in Retrospect. Ignatius, 1993, p. 42.
[7] “The Farewell Trio”, Explorations on Theology, p. 523ss.
[8] My Work: in Retrospect, p. 10.
[9] Our Task, Ignatius, 1994, 27ss.
[10] Ibid, 32ss.
[11] My Work: in retrospect, p. 105.
[12] First glance at Adrienne von Speyer. Ignatius, 1981, p. 44ss.
[13] Das Allerheiligerbuch (não publicado, copyright Johannes-Verlag).
[14] Ibid.
[15] Cardeal Joseph Ratzinger, “Homilia na liturgia funeral de Hans Urs von Balthasar”, Schindler, op. cit., p. 295.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Das Herz der Welt (O Coração do Mundo)

Hans Urs von Balthasar

CAPÍTULO 1

Prisões da finitude! Como cada um dos outro seres, o homem nasce em várias prisões. Alma, corpo, pensamento, intuição, tendência: tudo o que diz respeito a ele tem um limite, é a própria e tangível limitação; tudo é um Isso e Aquilo, diferente das outras coisas e ofuscado por elas. Das celas dos sentidos cada pessoa observa as outras coisas, as quais ele nunca será. Ainda que o seu espírito pudesse voar pelos espaços do mundo como um pássaro, ele próprio jamais será esse espaço, e o rastro que ele traça no ar desaparece imediatamente e não deixa nenhuma impressão duradoura. Quão distante um ser de seu vizinho mais próximo! E ainda que eles se amassem e acenassem um ao outro, de uma ilha para a outra ilha, ainda que tentassem trocar solidões e pretendessem possuir uma unidade, tanto mais dolorosamente a decepção cairá, então, sobre eles quando tocarem as barras invisíveis das celas – a fria barreira de vidro contra a qual eles se jogam, como pássaros aprisionados. Ninguém pode destruir sua própria masmorra; ninguém sabe quem mora na próxima cela. A conjectura pode procurar seu caminho do homem para a mulher, da criança para o adulto, menos ainda do que é possível do homem para o animal. Os seres são alienados uns dos outros, mesmo que estejam belamente um ao lado do outro e se complementem mutuamente como cores, como água e pedra, como o sol e a névoa: mesmo que, comunitariamente, aperfeiçoem a retumbante harmonia do universo. A diversidade paga o preço de uma amarga separação. O simples fato de existir como indivíduo constitui uma renúncia. O espelho límpido foi rachado, a imagem infinita foi destruída sobre a face do mundo, o mundo se tornou um amontoado de fragmentos. Mas cada pedacinho individual permanece precioso, e de cada fragmento brilha um raio do mistério de sua origem. E o bem infinito pode ser detectado no bem finito: a promessa de coisas maiores, a possibilidade de progredir, uma sedução tão doce que nosso pulso chega a falhar diante dessa entusiástica felicidade, quando o maravilhoso – que possibilita um gozo sem fronteiras – subitamente se descortina por alguns instantes, livre de seu esconderijo, e se apresenta aberto e desnudo, despido da vestimenta cinza do costume. Aqui está o selo de sua proveniência, o beijo de sua origem, o clamor de sua unidade perdida. E, no entanto, o núcleo dessa felicidade permanece sempre incompreensível e misterioso. Se alguém o agarrar, não conseguirá entendê-lo; terá nas mãos a maçã de Adão, não a fruta infinita da Árvore da Vida. Sorrindo tristemente, a imagem celestial lhe escapará, esvanecendo-se e dissolvendo-se em fumaça. O que parecia ser sem fronteiras exibe, uma vez mais, seus muros absolutos, e tanto o que procura como o procurado voltam às suas estreitas prisões. Mais uma vez nos colocamos contra tudo, uma parte de uma parte, e o que possuímos apenas pode ser repartido. Nenhum esforço, nenhum lamento pode escancarar a porta da prisão.
Mas veja: o revoltante, oscilante e inconcebivelmente fluente Tempo continua sempre – o barco invisível, de costa a costa, um farfalhar de asas, de um ser ao outro. Suba a bordo do Tempo: ele já está de partida. Ele o carrega consigo, e você não sabe nem como nem aonde ele o está levando. O solo rígido aos seus pés está começando a tremer e ceder. O caminho duro se torna suave e vivo, e começa a fluir com toda a beleza do curso sinuoso e tranqüilo de um rio. As margens mudam constantemente e variam: uma hora são florestas através dos quais o Tempo o conduz, outra hora campos imensos e as cidades dos homens. A própria correnteza possui muitas formas e modulações: uma hora ela flui em um movimento suave, outra hora mergulha selvagemente em cataratas, e então novamente flui gentilmente e se alarga em um lago. O movimento agora se torna imperceptível, e ao longo das margens a água, por vezes, flui de volta até ser novamente arremessada pela tração do centro.
O Espaço é frio e rígido, mas o Tempo é vivo. O Espaço divide, mas o Tempo transforma todas as coisas em algo diferente. Ele não caminha fora de você e você não nada sobre ele como um graveto à deriva. O Tempo flui através de você: é você mesmo que está a fluir. Você é o rio. Você está de luto? Confie no Tempo: logo você estará sorrindo. Mas não poderá segurar a risada demoradamente, pois logo estará chorando. Você muda de um humor para outro, de um estado para outro, de um despertar para um sono e de um sono novamente para um despertar. Não consegue distrair-se por muito tempo. Chega a uma parada, está cansado, faminto, precisa se sentar e comer; você fica de pé novamente, e reinicia, uma vez mais, o caminho da distração. Você sofre: de uma distância inatingível, você vislumbra o Fato pelo qual anseia. Mas a correnteza está constantemente movendo-o e numa manhã a hora da ação chega. Você é uma criança, e nunca (assim você pensa) sairá do estado indefeso da infância, que o tranca dentro de quatro paredes sem janelas. Mas veja: sua parede é, ela mesma, móvel e mutável, e todo o seu ser é remodelado e transformado em um jovem. A partir do seu interior crescem molas escondidas que o farão crescer. Possibilidades se abrem diante de você como flores, e um dia o mundo terá crescido ao seu redor. Suavemente, o Tempo o transporta de uma curva para outra. Novas vistas e horizontes se descortinam ao seu lado enquanto você caminha. Você começa a amar a mudança, e descobre que uma extraordinária aventura está em ação. Você percebe uma direção, sente um novo impulso, pode farejar o mar. E você vê que aquilo que lhe muda também muda tudo ao seu redor. Cada ponto pelo qual você passa apressadamente também está em movimento. Cada ponto está sendo dirigido para alguma direção: sua própria e longa história está seguindo seu curso: mas cada ponto conhece o fim de sua história tanto quanto você conhece o fim da sua. Você olha para o céu. É sublime a rotação de seus sóis, mas estes estão todos pesadamente atarefados com seus sistemas planetários como se fossem uvas, e se distanciam uns dos outros em distâncias previamente preparadas e espaços insondáveis. Você esmaga átomos e eles pululam em uma confusão maior do que se você tivesse pisado em um formigueiro. Você procura uma estadia permanente e uma lei permanente na meia-região temperada da nossa terra, mas aqui, também, não há nada senão uma história de evento e mudança constantes, e ninguém é capaz de prever para você nem ao menos as nuvens da próxima semana.
Há uma lei, é verdade, mas ela é a lei misteriosa da transformação, que não pode ser percebida por ninguém, exceto a própria pessoa que se transforma. Você não pode atravessar o rio até a margem enxuta, para lá capturar o seu impetuoso fluir, como se fosse um peixe. E é apenas na água que voê próprio pode aprender a nadar. Os homens sábios procuram perscrutar os fundamentos da existência, mas tudo o que conseguem é descrever uma onda da correnteza. Em sua descrição, a correnteza está congelada e só pode voltar a ser verdadeira se eles novamente libertarem o retrato que dela fizeram de volta à mudança. Os insaciáveis entre eles lançam vários projetos: jogam pedras na água com vistas a prejudicar a correnteza: em seus sistemas, eles conseguiram inventar uma Ilha da Eternidade, e então incham seus corações como balões, tudo isso para capturar a eternidade na armadilha de um esfuziante Agora. Mas eles capturam apenas ar e explodem, ou, como que por feitiçaria transformados em uma Idéia Imaginária, esquecem completamente de viver, e a correnteza calmamente se livra dos seus corpos. Não: a lei está no rio e somente percorrendo-o você pode dominá-la. A perfeição se encontra na plenitude da caminhada. Por essa razão, nunca ache que você já chegou. Esqueça o que ficou para trás; busque o que está à sua frente. É justamente através da mudança em que você perde o que havia agarrado que você se transformará naquilo que busca com tanta saudade.
Confie no Tempo. O Tempo é música, e o espaço em que ele ressoa é o futuro. Compasso por compasso, a sinfonia é criada em uma dimensão que se inventa a si própria, e que a cada momento se torna disponível a partir de um insondável depósito do Tempo. No Espaço, sempre falta algo: a pedra é muito pequena para a estátua, o quarteirão da cidade não consegue conter a multidão. Quando, no Tempo, faltou algo? Quando ele foi muito curto, como um pedaço de corda? O Tempo é tão longo quanto a graça. Entregue-se à graça do Tempo. Você não pode interromper a música para capturá-la e colecioná-la. Deixe que ela flua e escape, do contrário você não poderá captá-la. Você não pode condensá-la em um acorde bonito e então possuí-la de uma vez por todas. A paciência é a primeira virtude daquele que quer perceber. E a segunda é a renúncia. Pois observe: você não pode captar o vôo da melodia até que a sua última nota tenha soado. Somente então, quando a melodia completa tiver desaparecido totalmente, você poderá avaliar seus misteriosos balanços, os arcos de tensão e as curvas da distância. Somente o que se estabeleceu no ouvido pode se elevar ao coração. E portanto (e no entanto!), você não pode captar invisivelmente na unidade do espírito o que você não tiver experimentado na diversidade dos sentidos. E assim o eterno está acima do tempo e é a sua colheita, e no entanto apenas pode vir a ser e se realiza através da mudança do tempo.
Que estranhos seres somos nós! Somente crescemos através do impulso à transigência. Não podemos amadurecer, não podemos enriquecer de outra forma a não ser por meio de uma ininterrupta renúncia que ocorre hora após hora. Devemos aguentar a duração e ultrapassá-la. Toda vez que tentamos parar violamos o próprio princípio natural da vida. Toda vez que perdemos a paciência para com a existência no tempo, justamente por isso caímos no nada. Na medida que caminhamos em frente, uma voz do vento contrário sussurra que estamos nos fragmentando; mas se paramos em silêncio para melhor escutá-la, ela já se encontrará muda. O Tempo é de uma só vez uma ameaça e uma promessa da qual nunca se ouviu falar. “Deixe-me seguir em frente”, ela nos diz, “do contrário você não conseguirá me acompanhar! Deixe-me ir, mostre-me suas mãos vazias: eu não posso preenchê-las! De outro modo eu o deixarei para trás com meus dons frescos e novos e o abandonarei às suas ninharias ultrapassadas. Creia-me: você será mais rico se for capaz de parar e se desligar de seu júbilo e de sua hora de triunfo, mais rico se puder, ao invés, ser pobre e aberto, um mendigo no portal do futuro! Não espere, não se apegue ou se prenda! Você não pode guardar o tempo: deixe que ele o ensine a desperdiçar! Gaste você mesmo aquilo que um outro poderá, de outro modo, tomar de você com violência. Então você, o miserável assaltado, será mais rico que um rei. O tempo é a escola da exuberância, a escola da magnanimidade.”
É a grande escola do amor. E se o tempo é a base da nossa existência, a base da nossa existência é o amor. O tempo é o fluir da existência: o amor é a vida que transborda. O tempo é a existência que foi desapropriada, sem defesa e sem ser consultada; o amor se desapropria de si mesmo e cordialmente se permite ser desarmado. A existência não pode evitar (essa é sua lei e sua essência): ao fluir ela demonstra o amor. E assim o caminho está aberto para que a existência seja, ela mesma, amor. Devemos ser pacientes mesmo que estejamos perecendo de impaciência, pois ninguém pode aumentar a duração de sua vida por nem ao menos o menor dos incrementos, exceto, quer dizer, crescendo... com o tempo. Devemos renunciar às coisas mesmo se, tremendo de ambição, manipulamos cruelmente nossas posses: calmamente o Tempo remove mortalmente nossos dedos, e os tesouros que agarramos desabam no chão. Cada momento de nossa vida nos ensina gentilmente aquilo que o último momento deverá finalmente reforçar com violência: que temos de descobrir no mistério da duração do tempo o doce coração de nossa vida – a oferta feita por um amor incansável. Estranho: nós devemos ser aquilo que em vão tanto buscamos. Podemos realizar simplesmente em nossa existência aquilo que tão penosamente não conseguimos atingir em nosso conhecimento e vontade. Gostaríamos de nos doar e já fomos doados. Procuramos por alguém a quem possamos nos abandonar, e já fomos acolhidos há tempo. E quando o coração se torna confuso ao considerar a inutilidade de tudo o que viveu, esse não é senão o medo da noiva em sua noite de núpcias quando é roubada de seu último véu.
Fomos designados como seres que devem voluntariamente realizar o que devem involuntariamente desejar. Mas o que pode trazer mais felicidade, que pensamento pode ser mais intoxicante do que este: existir já é uma obra do amor! E assim, é em vão que eu luto contra o fato de ser o que sempre fui... E mesmo que eu pudesse gritar “Não!” com todas as forças, mesmo se minhas veias inchassem de pavor enquanto eu grito esse “Não!”, mesmo então, no último canto da caverna, um eco traiçoeiramente diria sim: Sim! Se, após várias mortes, nós morremos uma última vez, nesse ato máximo da vida a existência terá parado de morrer. Somente uma coisa pode sempre ser mortal: estar vivo e não querer morrer. Cada morte que é morta voluntariamente é uma fonte de vida. O cálice do amor é, assim, uma mistura de vida e morte. É um milagre que nós não amemos: o a amor é a marca d’água no pergaminho da nossa existência. É à melodia do amor que nossos membros respondem. Quem ama obedece o impulso da vida no tempo; quem se recusa a amar luta (inutilmente) contra a corrente. Quão fácil se torna o gesto de doação quando a água dourada do Ser flui constantemente através de nós como se através da boca de uma fonte! Quão fácil ser desapropriado quando nos banhamos na riqueza de um futuro que flui inexaustivamente! Quão fácil é a fidelidade depois de o Tempo infiel ter colocado em nosso dedo seu anel inviolável! Quão fácil é a morte quando experimentamos hora a hora o quâo abençoado, na verdade, o quão vantajoso é continuar! E mesmo a ação, a ação ansiosa, que nos contrai e reduz, oferece como substituto para a neblina exterior a clareza interior da pobreza. Não há nada de trágico em nós, pois toda renúncia é extravagantemente recompensada, e quanto mais nos aproximamos do puro centro da pobreza desnuda, mais intimamente tomamos posse de nós mesmos, mais confiadamente todas as coisas são nossas.
Desse modo, podemos ser aquilo que gostaríamos de ser. Na água misteriosa do Tempo em que nos banhamos e que nos constitui, nesse liquido do Ser, a resistência profundamente odiada se dissolve e desfaz. Somente aquilo que é fixo é questionável, somente o que é opaco e duro e opõe uma resistência a todo espírito e olhar. Mas o olho é úmido e o espírito diáfano, e assim seus raios atravessam e dissolvem o que é teimoso. Enquanto nós exteriormente nos armamos com várias camadas contra os imperativos inexoráveis da vida, em nosso mais profundo ser a fonte jorra e derruba os muros e mina a nossa fortaleza mais sólida. Ninguém pode aguentar até o fim a cruel demolição provocada por essas ondas. Dia após dia elas nos erodem, corroendo pedra por pedra de nossas desgastadas margens. No fim nós caímos. Com o passar do tempo mesmo o mais louco capta o Tempo. Este escava sua cama nele e tritura com sua pedra redonda como a catarata faz com uma geleira.
E assim você percebe o tempo e ele o inicia em seu mistério mais elevado. Você chega a sentir o ritmo do Tempo, ora acelerando, ora retrocedendo. Sob a forma do futuro ele se aproxima de você, subjuga-o, concede-lhe um prêmio incomensurável; mas também o assalta e exige que você entregue tudo. Ele quer que você seja rico e pobre a um só tempo, cada vez mais rico e cada vez mais pobre. Ele que você seja mais amável. E se você seguisse de todo o coração a lei e o imperativo de seu verdadeiro ser, se você fosse por uma vez plenamente você mesmo, viveria apenas por esse dom que flui para você (esse dom que é você mesmo), e faria isso dando-o de volta, em santidade e sem tê-lo manchado pela possessividade. Sua vida seria como a própria respiração, como a calma e inconsciente duplo movimento dos pulmões. E você mesmo seria o ar, inspirado e expirado com a medida transformadora das marés. Você seria o sangue no pulso de um Coração que o toma e expele e o mantém cativo na circulação e encanto de suas veias.
Você percebe o Tempo e ainda assim não conseguiu perceber o Coração? Percebe a torrente da graça que lhe invade, quente e vermelha, e ainda assim não sentiu como é amado?´Procura uma prova, e no entanto você mesmo é essa prova. Você procura prendê-lo, o Único Desconhecido, na armadilha do seu conhecimento, e no entanto você mesmo está preso na inescapável rede do seu poder. Gostaria de agarrá-lo, mas você mesmo já foi agarrado. Gostaria de superá-lo e está sendo superado. Acha que está procurando, mas já foi há muito tempo (e desde sempre) encontrado. Através de mil vestimentas você sente o seu caminho para um corpo vivo, e no entanto insiste que não não consegue sentir a mão nua que toca sua alma vazia? Você se lança na afobação do seu coração inquieto e chama isso de religião, quando na verdade eles são as convulsões de um peixe lutando no convés do navio. Você gostaria de encontrar Deus ainda que com mil sofrimentos: é uma humilhação o fato de os seus esforços terem sido apenas uma afobação vazia, uma vez que ele há tempo o sustenta em sua mão. Coloque o dedo no pulso vivo do Ser. Sinta a pulsação que, no tremendo derramar da existência, ao mesmo tempo determina a medida precisa da distância: como você deve amá-lo como seu amigo mais íntimo e como deve se prostrar diante dele como o Senhor altíssimo; como em um único e mesmo ato ele o veste por amor e o despe por amor; como, junto com a existência, ele aperta todos os tesouros em sua mão, e a jóia mais preciosa de todas: amá-lo de volta, estar apto a dar de volta para ele um dom; e como ele, no entanto (não em seguida, em um segundo movimento, em um degrau acima), novamente toma de volta tudo que foi dado, de forma que você possa amar não o dom mas o doador e de forma que você conheça, mesmo na doação, que você não passa de uma onda em sua correnteza. No mesmo instante de brecha da existência você está perto e longe; no mesmo momento um amigo e um mestre é colocado diante de você. No mesmo momento você é criança e escravo. Você nunca irá além desse primeiro estado das coisas. Na eternidade você viverá da forma como tem sido.. Pois, mesmo que sua virtude, sua sabedoria, seu amor elevado incomensuravelmente, mesmo que você crescesse além dos homens e dos anjos diretamente rumo ao mais alto dos céus, mesmo então você nunca deixaria o seu ponto de partida. E no entanto nada é mais abençoado do que esse primeiro momento, e aconteceria que no maior arco do desenvolvimento você iria apenas ser constantemente trazido de volta a essa maravilha de sua origem! Pois a plena realidade do amor é inconcebivelmente gloriosa.
E a vida, que fique claro, procura se afastar de sua origem. Ela procura a si mesma e acredita que se encontra onde está segura dos perigos de seu início. A semente parece ser totalmente desprotegida; parece ter a necessidade de uma casca grossa, e o momento da geração se aproxima demais do nada. Mas uma lei férrea impele todo o movimento linear de volta ao círculo. A vida desperta para a sua própria realidade e se ergue em um grande e frágil arco; e procura, então, se afirmar em seu estreito sulco. O sangue flui poderosamente através da estreita porta da vida individual, inflamando o seu coração e cérebro. Possuído por um senso de auto-importância e de missão, suas mãos orgulhosamente dispensam, como se a tivessem criado, aquilo que de fato vem a ele de longe, das desconhecidas raízes de seus ancestrais. Mas o ápice da caminhada foi atingido, e enquanto para os outros o sol pode ainda estar em ascensão, seu caminho começa a declinar e mergulha na tarde das mais frias florestas, e novamente ele a escuta murmurando – um pequeno regato no início: a memória de dias mais jovens, agora quase enterrados, começa a crescer; uma saudade de tempos mais primais suavemente vem à tona; e subitamente, precipitadamente, uma catarata mergulha na noite abismal do Início. Toda aquela maravihosa existência se dissolve, como o curso de diferentes rios, no Oceano Único da morte e vida. No Oceano Único as ondas sobem e descem; o corpo flutua acima do corpo; figuras e gerações, século após século, tornam-se espuma que cai prostrada na grande praia da eternidade em uma grande e tremenda reverência.
O sentido de nossa vida: mostrar o nosso reconhecimento de que não somos Deus. Assim, nós morremos para Deus, pois Deus é a vida eterna. Como poderíamos alcançá-la de outra forma senão pela morte? Em nossa vida, a morte é a garantia de que nós estamos tocando em algo que sobrevive a essa vida. A morte é a profunda reverência de nossa vida, a cerimônia de proskynesis diante do trono do Criador. E, uma vez que o ser mais íntimo das criaturas consiste no louvor e serviço e temor que elas devem ao seu Criador, uma gota de morte é misturada em cada momento da existência. Porque o tempo e o amor são tão proximamente entrelaçados, entretanto, as criaturas também amam sua morte, e seu ser não se recusa a perecer. Porém, mesmo se a vida pequena e individual fosse temerosa e nossa obscurecida vontade própria lutasse contra a morte, a própria existência – a profunda inflamação do mar, que a levanta e abaixa – conhece o seu Mestre e alegremente faz reverência diante dele. Pois ela sabe intuitivamente que o outono vem apenas para preparar a primavera, e que nesse mundo tudo o que sustenta a promessa de florescimento em Deus murcha de todo coração.
Assim a criatura morre para Deus e cresce para Deus. Nós corremos para a luz e somos dirigidos a ela em êxtase; mas o fogo do qual ninguém se aproxima nos segura em seu feitiço. Nós mergulhamos nas chamas, somos queimados constantemente, mas a chama não nos mata: ela nos transforma em luz e nos queima em nós como amor. Esse é um amor que conhece as profundezas. Ele vive em nós, se estabelece em nosso interior como um centro; nós vivemos a partir dele; ele nos preenche e nutre; ele nos dirige ao seu encanto, vestindo-se conosco como um manto e usando nossa alma como seu órgão. Não somos mais nós mesmos: em uma proximidade mais imediata e dificilmente distinguível, é o Senhor em nós. Um medo amoroso cresce em nós, medo que mais e mais nos força urgentemente a nos ajoelhar, no pó de nosso nada. Poderosamente, mais barulhento que o próprio Tempo, bate o Coração do amor. Ele pulsa e une Dois em Um e novamente divide Um em Dois. Nós, então, vivemos a partir de Deus: ele nos dirige poderosamente ao seu centro ardente e nos sequestra, com o seu senhorio, de todo centro que não é o seu. Mas nós não somos Deus, e, a fim de mostrar mais poderosamente o poder de seu centro, ele nos arremessa imperiosamente – não sozinhos, não impotentes, mas presenteados com nosso próprio centro e no poder de nossa missão. Deus nos reclama ciosamente; ele nos quer somente para si e para sua honra. No entanto, carregados com o seu amor e vivendo em sua honra, ele nos envia de volta para o mundo. Pois não é o ritmo de sua criação que ela deva sair de Deus como egressa e retornar à sua fonte como regressa. Ao invés, ambas são como uma só coisa, inseparáveis, e proceder não é menos incondicional que retornar, nem a missão menos desejada por Deus que a espera por ele. E talvez o proceder de Deus seja ainda mais divino que a volta à casa de Deus, uma vez que a grande coisa não é para nós conhecer a Deus e refletir esse conhecimento de volta para ele como se fôssemos espelhos resplandescentes, mas proclamá-lo como tochas ardentes proclamam a luz. “Eu sou a luz do mundo”, diz Deus, “e sem mim nada podeis fazer. E, além de mim, não há outra luz ou outro deus. Mas vocês são a luz do mundo, uma luz emprestada mas não falsa; ardendo em minha chama vocês deverão inflamar o mundo com o meu fogo. Vão em direção à escuridão mais distante! Levem meu amor como cordeiros em meio aos lobos! Levem meu evangelho àqueles que se encolhem no escuro e na sombra da morte! Vão; aventurem-se além do aprisco seguro! Eu os trouxe uma vez para casa quando vocês eram ovelhas perdidas e sangravam entre os espinhos. Eu os trouxe, então, em meus ombros de bom pastor. Mas agora o rebanho está disperso e o portão do redil está escancarado: essa é a hora da missão! Fora! Separem-se de mim, pois eu estou com vocês até o fim do mundo. Pois eu mesmo saí do Pai e, ao sair dele, tornei-me obediente até a morte, e pela obediência tornei-me a perfeita imagem do seu amor por mim. O sair é, em si mesmo, amor; o sair é, em si mesmo, o retorno. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Ao sair de mim como um raio do sol, como uma correnteza de sua fonte, vocês permanecerão em mim, pois eu mesmo sou o raio que resplandece, a correnteza que é derramada do Pai. Dar é mais abençoado do que receber. Assim como eu irradio o Pai, assim também vocês me irradiarão. Então virem seus rostos para mim para que eu os possa virar para o mundo. Vocês estarão tão distantes de seus próprios caminhos que eu posso colocá-los no caminho em que estou".
Esse é um novo mistério, inconcebível para meras criaturas: que mesmo a distância de Deus e a frieza da reverência são uma imagem e uma semelhança de Deus e da vida divina. O que é mais incompreensível é, de fato, a realidade mais verdadeira: precisamente por não ser Deus vocês se assemelham a Deus. E precisamente por estarem fora de Deus vocês estão em Deus. Pois estar em confronto com Deus é, em si mesma, uma coisa divina. Como uma pessoa que é incomparável você reflete a unicidade do seu Deus. Pois na unidade de Deus, também, encontram-se distância e reflexão e eterna missão: Pai e Filho confrontam-se um ao outro e no entanto são um no Espírito e na natureza que os sela em conjunto. Não apenas a Imagem Primeira é Deus, mas também a Semelhança e a Imagem Refletida. Não apenas a unidade é incondicional; é também divino ser Dois quando há um Terceiro que os reúne. Por essa razão o mundo foi criado nesse Segundo, e nesse Terceiro ele permanece em Deus.
O sentido da criação, porém, permanece inexplicável na medida que o véu cobre a eterna Imagem. Essa vida não seria senão destino, esse tempo apenas sofrimento, todo amor apenas decadência, se o pulso do Ser não palpitasse na eterna e triuna Vida. Somente assim a fonte da vida começa a jorrar também em nós: ela fala da Palavra em nós, torna-se ela própria Palavra e Linguagem, e comunica a nós – como uma saudação de Deus – a tarefa de proclamar o Pai no mundo. Somente assim a maldição da solidão é resolvida: pois estar-em-confronto é, em si mesmo, divino, e todos os seres – homem e mulher e animal e pedra – não são, por sua particular existência, excluídos da vida comum; são, ao contrário, orientados um ao outro em sua própria forma. Não estão trancados em uma prisão escura em que seus lamentos oprimidos procuram escapar para o ilimitado: ao contrário, como mensageiros de Deus, realizando um trabahlho de finalização resplandescente, eles são envolvidos noo Corpo único cuja Cabeça repousa no seio do Pai.
Bata, então, Coração da existência, pulso do Tempo! Instrumento do amor eterno! Você nos enriquece e, novamente, nos empobrece. Você nos atrai para si apenas para, então, se retirar de nós. Mas, através dos movimentos das marés, permanecemos o ornamento festal que você veste. Majestosamente você urra sobre nós; reduz-nos ao silêncio com suas estrelas; preenche-nos até nos inundar, até a própria borda, e nos esvazia até a sujeira, até o ponto de colapso. E se urra ou mantém-se em silêncio, se preenche ou esvazia, permanece o Senhor e nós seus servos.


(traduzido livre e apressadamente do inglês, e comparado com o original alemão sem o cuidado devido. Ainda assim, e apesar da linguagem às vezes densa e quase impossível de traduzir, esse livro de von Balthasar mereceria uma boa edição em português. Segundo sua editora, há uma edição portuguesa de 1967, à qual não tive acesso e continuo procurando. E quem sabe um dia possa haver uma edição brasileira dessa pequena obra-prima da literatura cristã do século XX)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A RESPOSTA DA FÉ (Die Antwort des Glaubens)

Hans Urs von Balthasar

O cristianismo e as grandes religiões
Uma análise

O espaço aqui oferecido é demasiado estreito para um tratamento profundo do tema; deverá ser útil, ao menos, para detectarmos o abuso que consiste na colocação, lado a lado, das assim chamadas “grandes religiões”, como conjuntos de igual valor, a partir do qual se poderia, dependendo do gosto, gerar um interesse por alguma delas e a ela se dedicar.
A religião prevalece no momento em que a pessoa sabe que deve ser grata, em última instância, por sua própria existência. A quem (por distração) isso não ocorre, ou quem (devido aos aspectos tenebrosos do mundo) pensa não poder fazê-lo é levado à revolta contra Deus (que, no fim das contas, é um contra-senso se Deus, o Bem absoluto, existir) ou ao ateísmo, que não permite nenhuma interpretação do sentido da existência pessoal e se desvia da esfera da religião; este último será tratado em uma outra contribuição desta série.
Procuraremos caminhar, em três estágios, do geral ao particular para, finalmente, questionarmos sobre a possibilidade de uma convergência das religiões e de sua integração.

1. Os dois hemisférios
No mundo atual mostram-se claramente dois âmbitos religiosos: o hemisfério ocidental é marcado pela religião da revelação: judaísmo, cristianismo e (descendente de ambos) islamismo: aqui predomina a idéia de um Deus livre e pessoal, que inventou o mundo real sem qualquer necessidade e o tornou existente como aquilo diferente de Si mesmo e que, no entanto, traz o carimbo de sua origem, o caráter de “imagem de Deus”. Ao lado disso, o mundo oriental é dominado pela apresentação de uma Divindade impessoal em todas as variedades de sua religiosidade,[1] o Fundamento original que, enquanto tal, “aparece” na pluralidade de todo modo irreal do mundo, mas que deve ser buscado além da aparência obscurecedora. Abstraindo-se das assim chamadas “religiões primitivas” e daqueles sem-religião, permanecem os dois blocos lado a lado, com mais de um bilhão de adeptos cada.
A diferença está em que no Ocidente o homem religioso encontra uma revelação de Deus, que entrou na história, enquanto no Oriente não acontece assim: aqui o movimento parte essencialmente do homem religioso em direção ao Absoluto-Divino (mesmo quando alguém especialmente iluminado, como Buda ou Lao-tsé, encontra o caminho e o conhece). Porém, o comum é que a pessoa se perceba a si mesma como no mais íntimo relacionamento com Deus (ou com o Absoluto): se ela se entende, então, (ocidentalmente) como “imagem” de Deus ou (orientalmente) principalmente como “forma ilusória” oculta, distanciada do Absoluto.
Essa generalização é de fundamental importância. O ser humano, em sua individualidade, sente-se elementarmente lançado (re-ligio) de volta ao fundamento primeiro de sua origem, e a realização desse relacionamento (na contemplação interior, como na ação exterior) provoca-o, antes de tudo, em sua “verdade”. “Ser-imagem” ou “ser-aparência” são, portanto, apenas o ponto de partida de um movimento, de uma transcendência. Os Padres da Igreja haviam expressado isso classicamente, na medida que explicavam de tal modo as afirmações do início da bíblia, de que os homens haviam sido “criados à imagem e (ou para a) semelhança de Deus (Gn 1,26), que a “imagem” seria a natureza criada do ser humano, que deveria se purificar e aperfeiçoar – por um esforço consciente e pela graça de Deus, no sentido inverso – rumo a uma “adaptação” aproximadora da imagem original, que é Deus. Algo análogo vale em todas as formas da religião oriental: também aqui o homem deve “transcender” sua essência natural, na qual se encontra, para alcançar sua verdade própria. Em ambos os hemisférios vale a “imagem”, aquela que o homem é como algo que deve ser trabalhado de forma unitária, para que assim a adaptação se realize gradualmente: o homem quer ser, inicialmente, apenas aquilo que ele encontra, apega-se egoistamente à sua forma aparente, não quer se obrigar ou o faz apenas de má vontade ou superficialmente; ele deve se “superar”, para alcançar um amor abnegado e preferencial de seu modelo divino.
Aqui, porém, surge novamente, e com mais força, a diferença. No Ocidente, onde Deus é reconhecido como um Criador livre, o eu de cada indivíduo é um eu desejado por Deus, um próximo amado, o “altruísmo” do amor significa, aqui, com efeito, que devo lutar para vencer o egoísmo do meu eu através de um amor abnegado a Deus, a meus semelhantes e a mim mesmo – e não sem a ajuda da graça divina. No Oriente, ao contrário, o eu individual é apenas a aparência de um fundamento divino (ou “Eu”); “altruísmo” significa, então, abandonar a própria individualidade aparente, para viver a partir do núcleo da verdade, no qual todos os indivíduos são idênticos. Está em jogo, em ambos os hemisférios, o “altruísmo”, e em ambos, porque Deus é, respectivamente, o Absoluto “altruísta”, mas o sentido correspondente à Sua apresentação é diferente: no Ocidente a pessoa (que permanece pessoa) dever ser abnegada porque Deus, sem qualquer necessidade, por um amor abnegado, criou o mundo e a mim mesmo; no Oriente o indivíduo deve renunciar a ser si-mesmo porque a Divindade é sem-eu.[2] O amor abnegado ocidental (sobretudo o “agapē” cristão) ama a Deus

[1] Como o brahmanismo, hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo e xintoísmo. As religiões antigas e extintas deverão permanecer fora de nossa análise.
[2] É preciso cuidado diante das ambíguas formas mistas. Pode-se afirmar, a partir daí , no Ocidente, que o caminho para o interior vai de um eu superficial para a profundeza de si mesmo: a questão é se esse “si-mesmo” é o núcleo da pessoa criada (e, assim, tudo bem!) ou é idêntico ao fundamento divino (e assim estaremos no âmbito oriental). Pode-se, mais além, afirmar no Ocidente que o núcleo mais íntimo da pessoa criada é divino e deve-se identificar com ele. A questão é se com esse núcleo queremos falar da “idéia” divina, que Deus teve de mim como uma pessoa criada, desde a eternidade: a ela eu devo tratar de corresponder; tonar-se ela é impossível, pois a idéia é idêntica a Deus, o eu enquanto criatura nunca poderá ser. Finalmente, pode-se imaginar no cristianismo uma assimilação pelo Filho eternamente gerado a partir do Pai, “no qual todas as coisas foram criadas”; mas nenhuma assimilação, “incorporada” ao Filho pela graça de Deus, pode se identificar diretamente com ele, enquanto princípio incorporador (heresia do isocristismo). Para todos esses três níveis é necessário – especialmente hoje – o sóbrio dom do discernimento.