quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Das Herz der Welt (O Coração do Mundo)

Hans Urs von Balthasar

CAPÍTULO 1

Prisões da finitude! Como cada um dos outro seres, o homem nasce em várias prisões. Alma, corpo, pensamento, intuição, tendência: tudo o que diz respeito a ele tem um limite, é a própria e tangível limitação; tudo é um Isso e Aquilo, diferente das outras coisas e ofuscado por elas. Das celas dos sentidos cada pessoa observa as outras coisas, as quais ele nunca será. Ainda que o seu espírito pudesse voar pelos espaços do mundo como um pássaro, ele próprio jamais será esse espaço, e o rastro que ele traça no ar desaparece imediatamente e não deixa nenhuma impressão duradoura. Quão distante um ser de seu vizinho mais próximo! E ainda que eles se amassem e acenassem um ao outro, de uma ilha para a outra ilha, ainda que tentassem trocar solidões e pretendessem possuir uma unidade, tanto mais dolorosamente a decepção cairá, então, sobre eles quando tocarem as barras invisíveis das celas – a fria barreira de vidro contra a qual eles se jogam, como pássaros aprisionados. Ninguém pode destruir sua própria masmorra; ninguém sabe quem mora na próxima cela. A conjectura pode procurar seu caminho do homem para a mulher, da criança para o adulto, menos ainda do que é possível do homem para o animal. Os seres são alienados uns dos outros, mesmo que estejam belamente um ao lado do outro e se complementem mutuamente como cores, como água e pedra, como o sol e a névoa: mesmo que, comunitariamente, aperfeiçoem a retumbante harmonia do universo. A diversidade paga o preço de uma amarga separação. O simples fato de existir como indivíduo constitui uma renúncia. O espelho límpido foi rachado, a imagem infinita foi destruída sobre a face do mundo, o mundo se tornou um amontoado de fragmentos. Mas cada pedacinho individual permanece precioso, e de cada fragmento brilha um raio do mistério de sua origem. E o bem infinito pode ser detectado no bem finito: a promessa de coisas maiores, a possibilidade de progredir, uma sedução tão doce que nosso pulso chega a falhar diante dessa entusiástica felicidade, quando o maravilhoso – que possibilita um gozo sem fronteiras – subitamente se descortina por alguns instantes, livre de seu esconderijo, e se apresenta aberto e desnudo, despido da vestimenta cinza do costume. Aqui está o selo de sua proveniência, o beijo de sua origem, o clamor de sua unidade perdida. E, no entanto, o núcleo dessa felicidade permanece sempre incompreensível e misterioso. Se alguém o agarrar, não conseguirá entendê-lo; terá nas mãos a maçã de Adão, não a fruta infinita da Árvore da Vida. Sorrindo tristemente, a imagem celestial lhe escapará, esvanecendo-se e dissolvendo-se em fumaça. O que parecia ser sem fronteiras exibe, uma vez mais, seus muros absolutos, e tanto o que procura como o procurado voltam às suas estreitas prisões. Mais uma vez nos colocamos contra tudo, uma parte de uma parte, e o que possuímos apenas pode ser repartido. Nenhum esforço, nenhum lamento pode escancarar a porta da prisão.
Mas veja: o revoltante, oscilante e inconcebivelmente fluente Tempo continua sempre – o barco invisível, de costa a costa, um farfalhar de asas, de um ser ao outro. Suba a bordo do Tempo: ele já está de partida. Ele o carrega consigo, e você não sabe nem como nem aonde ele o está levando. O solo rígido aos seus pés está começando a tremer e ceder. O caminho duro se torna suave e vivo, e começa a fluir com toda a beleza do curso sinuoso e tranqüilo de um rio. As margens mudam constantemente e variam: uma hora são florestas através dos quais o Tempo o conduz, outra hora campos imensos e as cidades dos homens. A própria correnteza possui muitas formas e modulações: uma hora ela flui em um movimento suave, outra hora mergulha selvagemente em cataratas, e então novamente flui gentilmente e se alarga em um lago. O movimento agora se torna imperceptível, e ao longo das margens a água, por vezes, flui de volta até ser novamente arremessada pela tração do centro.
O Espaço é frio e rígido, mas o Tempo é vivo. O Espaço divide, mas o Tempo transforma todas as coisas em algo diferente. Ele não caminha fora de você e você não nada sobre ele como um graveto à deriva. O Tempo flui através de você: é você mesmo que está a fluir. Você é o rio. Você está de luto? Confie no Tempo: logo você estará sorrindo. Mas não poderá segurar a risada demoradamente, pois logo estará chorando. Você muda de um humor para outro, de um estado para outro, de um despertar para um sono e de um sono novamente para um despertar. Não consegue distrair-se por muito tempo. Chega a uma parada, está cansado, faminto, precisa se sentar e comer; você fica de pé novamente, e reinicia, uma vez mais, o caminho da distração. Você sofre: de uma distância inatingível, você vislumbra o Fato pelo qual anseia. Mas a correnteza está constantemente movendo-o e numa manhã a hora da ação chega. Você é uma criança, e nunca (assim você pensa) sairá do estado indefeso da infância, que o tranca dentro de quatro paredes sem janelas. Mas veja: sua parede é, ela mesma, móvel e mutável, e todo o seu ser é remodelado e transformado em um jovem. A partir do seu interior crescem molas escondidas que o farão crescer. Possibilidades se abrem diante de você como flores, e um dia o mundo terá crescido ao seu redor. Suavemente, o Tempo o transporta de uma curva para outra. Novas vistas e horizontes se descortinam ao seu lado enquanto você caminha. Você começa a amar a mudança, e descobre que uma extraordinária aventura está em ação. Você percebe uma direção, sente um novo impulso, pode farejar o mar. E você vê que aquilo que lhe muda também muda tudo ao seu redor. Cada ponto pelo qual você passa apressadamente também está em movimento. Cada ponto está sendo dirigido para alguma direção: sua própria e longa história está seguindo seu curso: mas cada ponto conhece o fim de sua história tanto quanto você conhece o fim da sua. Você olha para o céu. É sublime a rotação de seus sóis, mas estes estão todos pesadamente atarefados com seus sistemas planetários como se fossem uvas, e se distanciam uns dos outros em distâncias previamente preparadas e espaços insondáveis. Você esmaga átomos e eles pululam em uma confusão maior do que se você tivesse pisado em um formigueiro. Você procura uma estadia permanente e uma lei permanente na meia-região temperada da nossa terra, mas aqui, também, não há nada senão uma história de evento e mudança constantes, e ninguém é capaz de prever para você nem ao menos as nuvens da próxima semana.
Há uma lei, é verdade, mas ela é a lei misteriosa da transformação, que não pode ser percebida por ninguém, exceto a própria pessoa que se transforma. Você não pode atravessar o rio até a margem enxuta, para lá capturar o seu impetuoso fluir, como se fosse um peixe. E é apenas na água que voê próprio pode aprender a nadar. Os homens sábios procuram perscrutar os fundamentos da existência, mas tudo o que conseguem é descrever uma onda da correnteza. Em sua descrição, a correnteza está congelada e só pode voltar a ser verdadeira se eles novamente libertarem o retrato que dela fizeram de volta à mudança. Os insaciáveis entre eles lançam vários projetos: jogam pedras na água com vistas a prejudicar a correnteza: em seus sistemas, eles conseguiram inventar uma Ilha da Eternidade, e então incham seus corações como balões, tudo isso para capturar a eternidade na armadilha de um esfuziante Agora. Mas eles capturam apenas ar e explodem, ou, como que por feitiçaria transformados em uma Idéia Imaginária, esquecem completamente de viver, e a correnteza calmamente se livra dos seus corpos. Não: a lei está no rio e somente percorrendo-o você pode dominá-la. A perfeição se encontra na plenitude da caminhada. Por essa razão, nunca ache que você já chegou. Esqueça o que ficou para trás; busque o que está à sua frente. É justamente através da mudança em que você perde o que havia agarrado que você se transformará naquilo que busca com tanta saudade.
Confie no Tempo. O Tempo é música, e o espaço em que ele ressoa é o futuro. Compasso por compasso, a sinfonia é criada em uma dimensão que se inventa a si própria, e que a cada momento se torna disponível a partir de um insondável depósito do Tempo. No Espaço, sempre falta algo: a pedra é muito pequena para a estátua, o quarteirão da cidade não consegue conter a multidão. Quando, no Tempo, faltou algo? Quando ele foi muito curto, como um pedaço de corda? O Tempo é tão longo quanto a graça. Entregue-se à graça do Tempo. Você não pode interromper a música para capturá-la e colecioná-la. Deixe que ela flua e escape, do contrário você não poderá captá-la. Você não pode condensá-la em um acorde bonito e então possuí-la de uma vez por todas. A paciência é a primeira virtude daquele que quer perceber. E a segunda é a renúncia. Pois observe: você não pode captar o vôo da melodia até que a sua última nota tenha soado. Somente então, quando a melodia completa tiver desaparecido totalmente, você poderá avaliar seus misteriosos balanços, os arcos de tensão e as curvas da distância. Somente o que se estabeleceu no ouvido pode se elevar ao coração. E portanto (e no entanto!), você não pode captar invisivelmente na unidade do espírito o que você não tiver experimentado na diversidade dos sentidos. E assim o eterno está acima do tempo e é a sua colheita, e no entanto apenas pode vir a ser e se realiza através da mudança do tempo.
Que estranhos seres somos nós! Somente crescemos através do impulso à transigência. Não podemos amadurecer, não podemos enriquecer de outra forma a não ser por meio de uma ininterrupta renúncia que ocorre hora após hora. Devemos aguentar a duração e ultrapassá-la. Toda vez que tentamos parar violamos o próprio princípio natural da vida. Toda vez que perdemos a paciência para com a existência no tempo, justamente por isso caímos no nada. Na medida que caminhamos em frente, uma voz do vento contrário sussurra que estamos nos fragmentando; mas se paramos em silêncio para melhor escutá-la, ela já se encontrará muda. O Tempo é de uma só vez uma ameaça e uma promessa da qual nunca se ouviu falar. “Deixe-me seguir em frente”, ela nos diz, “do contrário você não conseguirá me acompanhar! Deixe-me ir, mostre-me suas mãos vazias: eu não posso preenchê-las! De outro modo eu o deixarei para trás com meus dons frescos e novos e o abandonarei às suas ninharias ultrapassadas. Creia-me: você será mais rico se for capaz de parar e se desligar de seu júbilo e de sua hora de triunfo, mais rico se puder, ao invés, ser pobre e aberto, um mendigo no portal do futuro! Não espere, não se apegue ou se prenda! Você não pode guardar o tempo: deixe que ele o ensine a desperdiçar! Gaste você mesmo aquilo que um outro poderá, de outro modo, tomar de você com violência. Então você, o miserável assaltado, será mais rico que um rei. O tempo é a escola da exuberância, a escola da magnanimidade.”
É a grande escola do amor. E se o tempo é a base da nossa existência, a base da nossa existência é o amor. O tempo é o fluir da existência: o amor é a vida que transborda. O tempo é a existência que foi desapropriada, sem defesa e sem ser consultada; o amor se desapropria de si mesmo e cordialmente se permite ser desarmado. A existência não pode evitar (essa é sua lei e sua essência): ao fluir ela demonstra o amor. E assim o caminho está aberto para que a existência seja, ela mesma, amor. Devemos ser pacientes mesmo que estejamos perecendo de impaciência, pois ninguém pode aumentar a duração de sua vida por nem ao menos o menor dos incrementos, exceto, quer dizer, crescendo... com o tempo. Devemos renunciar às coisas mesmo se, tremendo de ambição, manipulamos cruelmente nossas posses: calmamente o Tempo remove mortalmente nossos dedos, e os tesouros que agarramos desabam no chão. Cada momento de nossa vida nos ensina gentilmente aquilo que o último momento deverá finalmente reforçar com violência: que temos de descobrir no mistério da duração do tempo o doce coração de nossa vida – a oferta feita por um amor incansável. Estranho: nós devemos ser aquilo que em vão tanto buscamos. Podemos realizar simplesmente em nossa existência aquilo que tão penosamente não conseguimos atingir em nosso conhecimento e vontade. Gostaríamos de nos doar e já fomos doados. Procuramos por alguém a quem possamos nos abandonar, e já fomos acolhidos há tempo. E quando o coração se torna confuso ao considerar a inutilidade de tudo o que viveu, esse não é senão o medo da noiva em sua noite de núpcias quando é roubada de seu último véu.
Fomos designados como seres que devem voluntariamente realizar o que devem involuntariamente desejar. Mas o que pode trazer mais felicidade, que pensamento pode ser mais intoxicante do que este: existir já é uma obra do amor! E assim, é em vão que eu luto contra o fato de ser o que sempre fui... E mesmo que eu pudesse gritar “Não!” com todas as forças, mesmo se minhas veias inchassem de pavor enquanto eu grito esse “Não!”, mesmo então, no último canto da caverna, um eco traiçoeiramente diria sim: Sim! Se, após várias mortes, nós morremos uma última vez, nesse ato máximo da vida a existência terá parado de morrer. Somente uma coisa pode sempre ser mortal: estar vivo e não querer morrer. Cada morte que é morta voluntariamente é uma fonte de vida. O cálice do amor é, assim, uma mistura de vida e morte. É um milagre que nós não amemos: o a amor é a marca d’água no pergaminho da nossa existência. É à melodia do amor que nossos membros respondem. Quem ama obedece o impulso da vida no tempo; quem se recusa a amar luta (inutilmente) contra a corrente. Quão fácil se torna o gesto de doação quando a água dourada do Ser flui constantemente através de nós como se através da boca de uma fonte! Quão fácil ser desapropriado quando nos banhamos na riqueza de um futuro que flui inexaustivamente! Quão fácil é a fidelidade depois de o Tempo infiel ter colocado em nosso dedo seu anel inviolável! Quão fácil é a morte quando experimentamos hora a hora o quâo abençoado, na verdade, o quão vantajoso é continuar! E mesmo a ação, a ação ansiosa, que nos contrai e reduz, oferece como substituto para a neblina exterior a clareza interior da pobreza. Não há nada de trágico em nós, pois toda renúncia é extravagantemente recompensada, e quanto mais nos aproximamos do puro centro da pobreza desnuda, mais intimamente tomamos posse de nós mesmos, mais confiadamente todas as coisas são nossas.
Desse modo, podemos ser aquilo que gostaríamos de ser. Na água misteriosa do Tempo em que nos banhamos e que nos constitui, nesse liquido do Ser, a resistência profundamente odiada se dissolve e desfaz. Somente aquilo que é fixo é questionável, somente o que é opaco e duro e opõe uma resistência a todo espírito e olhar. Mas o olho é úmido e o espírito diáfano, e assim seus raios atravessam e dissolvem o que é teimoso. Enquanto nós exteriormente nos armamos com várias camadas contra os imperativos inexoráveis da vida, em nosso mais profundo ser a fonte jorra e derruba os muros e mina a nossa fortaleza mais sólida. Ninguém pode aguentar até o fim a cruel demolição provocada por essas ondas. Dia após dia elas nos erodem, corroendo pedra por pedra de nossas desgastadas margens. No fim nós caímos. Com o passar do tempo mesmo o mais louco capta o Tempo. Este escava sua cama nele e tritura com sua pedra redonda como a catarata faz com uma geleira.
E assim você percebe o tempo e ele o inicia em seu mistério mais elevado. Você chega a sentir o ritmo do Tempo, ora acelerando, ora retrocedendo. Sob a forma do futuro ele se aproxima de você, subjuga-o, concede-lhe um prêmio incomensurável; mas também o assalta e exige que você entregue tudo. Ele quer que você seja rico e pobre a um só tempo, cada vez mais rico e cada vez mais pobre. Ele que você seja mais amável. E se você seguisse de todo o coração a lei e o imperativo de seu verdadeiro ser, se você fosse por uma vez plenamente você mesmo, viveria apenas por esse dom que flui para você (esse dom que é você mesmo), e faria isso dando-o de volta, em santidade e sem tê-lo manchado pela possessividade. Sua vida seria como a própria respiração, como a calma e inconsciente duplo movimento dos pulmões. E você mesmo seria o ar, inspirado e expirado com a medida transformadora das marés. Você seria o sangue no pulso de um Coração que o toma e expele e o mantém cativo na circulação e encanto de suas veias.
Você percebe o Tempo e ainda assim não conseguiu perceber o Coração? Percebe a torrente da graça que lhe invade, quente e vermelha, e ainda assim não sentiu como é amado?´Procura uma prova, e no entanto você mesmo é essa prova. Você procura prendê-lo, o Único Desconhecido, na armadilha do seu conhecimento, e no entanto você mesmo está preso na inescapável rede do seu poder. Gostaria de agarrá-lo, mas você mesmo já foi agarrado. Gostaria de superá-lo e está sendo superado. Acha que está procurando, mas já foi há muito tempo (e desde sempre) encontrado. Através de mil vestimentas você sente o seu caminho para um corpo vivo, e no entanto insiste que não não consegue sentir a mão nua que toca sua alma vazia? Você se lança na afobação do seu coração inquieto e chama isso de religião, quando na verdade eles são as convulsões de um peixe lutando no convés do navio. Você gostaria de encontrar Deus ainda que com mil sofrimentos: é uma humilhação o fato de os seus esforços terem sido apenas uma afobação vazia, uma vez que ele há tempo o sustenta em sua mão. Coloque o dedo no pulso vivo do Ser. Sinta a pulsação que, no tremendo derramar da existência, ao mesmo tempo determina a medida precisa da distância: como você deve amá-lo como seu amigo mais íntimo e como deve se prostrar diante dele como o Senhor altíssimo; como em um único e mesmo ato ele o veste por amor e o despe por amor; como, junto com a existência, ele aperta todos os tesouros em sua mão, e a jóia mais preciosa de todas: amá-lo de volta, estar apto a dar de volta para ele um dom; e como ele, no entanto (não em seguida, em um segundo movimento, em um degrau acima), novamente toma de volta tudo que foi dado, de forma que você possa amar não o dom mas o doador e de forma que você conheça, mesmo na doação, que você não passa de uma onda em sua correnteza. No mesmo instante de brecha da existência você está perto e longe; no mesmo momento um amigo e um mestre é colocado diante de você. No mesmo momento você é criança e escravo. Você nunca irá além desse primeiro estado das coisas. Na eternidade você viverá da forma como tem sido.. Pois, mesmo que sua virtude, sua sabedoria, seu amor elevado incomensuravelmente, mesmo que você crescesse além dos homens e dos anjos diretamente rumo ao mais alto dos céus, mesmo então você nunca deixaria o seu ponto de partida. E no entanto nada é mais abençoado do que esse primeiro momento, e aconteceria que no maior arco do desenvolvimento você iria apenas ser constantemente trazido de volta a essa maravilha de sua origem! Pois a plena realidade do amor é inconcebivelmente gloriosa.
E a vida, que fique claro, procura se afastar de sua origem. Ela procura a si mesma e acredita que se encontra onde está segura dos perigos de seu início. A semente parece ser totalmente desprotegida; parece ter a necessidade de uma casca grossa, e o momento da geração se aproxima demais do nada. Mas uma lei férrea impele todo o movimento linear de volta ao círculo. A vida desperta para a sua própria realidade e se ergue em um grande e frágil arco; e procura, então, se afirmar em seu estreito sulco. O sangue flui poderosamente através da estreita porta da vida individual, inflamando o seu coração e cérebro. Possuído por um senso de auto-importância e de missão, suas mãos orgulhosamente dispensam, como se a tivessem criado, aquilo que de fato vem a ele de longe, das desconhecidas raízes de seus ancestrais. Mas o ápice da caminhada foi atingido, e enquanto para os outros o sol pode ainda estar em ascensão, seu caminho começa a declinar e mergulha na tarde das mais frias florestas, e novamente ele a escuta murmurando – um pequeno regato no início: a memória de dias mais jovens, agora quase enterrados, começa a crescer; uma saudade de tempos mais primais suavemente vem à tona; e subitamente, precipitadamente, uma catarata mergulha na noite abismal do Início. Toda aquela maravihosa existência se dissolve, como o curso de diferentes rios, no Oceano Único da morte e vida. No Oceano Único as ondas sobem e descem; o corpo flutua acima do corpo; figuras e gerações, século após século, tornam-se espuma que cai prostrada na grande praia da eternidade em uma grande e tremenda reverência.
O sentido de nossa vida: mostrar o nosso reconhecimento de que não somos Deus. Assim, nós morremos para Deus, pois Deus é a vida eterna. Como poderíamos alcançá-la de outra forma senão pela morte? Em nossa vida, a morte é a garantia de que nós estamos tocando em algo que sobrevive a essa vida. A morte é a profunda reverência de nossa vida, a cerimônia de proskynesis diante do trono do Criador. E, uma vez que o ser mais íntimo das criaturas consiste no louvor e serviço e temor que elas devem ao seu Criador, uma gota de morte é misturada em cada momento da existência. Porque o tempo e o amor são tão proximamente entrelaçados, entretanto, as criaturas também amam sua morte, e seu ser não se recusa a perecer. Porém, mesmo se a vida pequena e individual fosse temerosa e nossa obscurecida vontade própria lutasse contra a morte, a própria existência – a profunda inflamação do mar, que a levanta e abaixa – conhece o seu Mestre e alegremente faz reverência diante dele. Pois ela sabe intuitivamente que o outono vem apenas para preparar a primavera, e que nesse mundo tudo o que sustenta a promessa de florescimento em Deus murcha de todo coração.
Assim a criatura morre para Deus e cresce para Deus. Nós corremos para a luz e somos dirigidos a ela em êxtase; mas o fogo do qual ninguém se aproxima nos segura em seu feitiço. Nós mergulhamos nas chamas, somos queimados constantemente, mas a chama não nos mata: ela nos transforma em luz e nos queima em nós como amor. Esse é um amor que conhece as profundezas. Ele vive em nós, se estabelece em nosso interior como um centro; nós vivemos a partir dele; ele nos preenche e nutre; ele nos dirige ao seu encanto, vestindo-se conosco como um manto e usando nossa alma como seu órgão. Não somos mais nós mesmos: em uma proximidade mais imediata e dificilmente distinguível, é o Senhor em nós. Um medo amoroso cresce em nós, medo que mais e mais nos força urgentemente a nos ajoelhar, no pó de nosso nada. Poderosamente, mais barulhento que o próprio Tempo, bate o Coração do amor. Ele pulsa e une Dois em Um e novamente divide Um em Dois. Nós, então, vivemos a partir de Deus: ele nos dirige poderosamente ao seu centro ardente e nos sequestra, com o seu senhorio, de todo centro que não é o seu. Mas nós não somos Deus, e, a fim de mostrar mais poderosamente o poder de seu centro, ele nos arremessa imperiosamente – não sozinhos, não impotentes, mas presenteados com nosso próprio centro e no poder de nossa missão. Deus nos reclama ciosamente; ele nos quer somente para si e para sua honra. No entanto, carregados com o seu amor e vivendo em sua honra, ele nos envia de volta para o mundo. Pois não é o ritmo de sua criação que ela deva sair de Deus como egressa e retornar à sua fonte como regressa. Ao invés, ambas são como uma só coisa, inseparáveis, e proceder não é menos incondicional que retornar, nem a missão menos desejada por Deus que a espera por ele. E talvez o proceder de Deus seja ainda mais divino que a volta à casa de Deus, uma vez que a grande coisa não é para nós conhecer a Deus e refletir esse conhecimento de volta para ele como se fôssemos espelhos resplandescentes, mas proclamá-lo como tochas ardentes proclamam a luz. “Eu sou a luz do mundo”, diz Deus, “e sem mim nada podeis fazer. E, além de mim, não há outra luz ou outro deus. Mas vocês são a luz do mundo, uma luz emprestada mas não falsa; ardendo em minha chama vocês deverão inflamar o mundo com o meu fogo. Vão em direção à escuridão mais distante! Levem meu amor como cordeiros em meio aos lobos! Levem meu evangelho àqueles que se encolhem no escuro e na sombra da morte! Vão; aventurem-se além do aprisco seguro! Eu os trouxe uma vez para casa quando vocês eram ovelhas perdidas e sangravam entre os espinhos. Eu os trouxe, então, em meus ombros de bom pastor. Mas agora o rebanho está disperso e o portão do redil está escancarado: essa é a hora da missão! Fora! Separem-se de mim, pois eu estou com vocês até o fim do mundo. Pois eu mesmo saí do Pai e, ao sair dele, tornei-me obediente até a morte, e pela obediência tornei-me a perfeita imagem do seu amor por mim. O sair é, em si mesmo, amor; o sair é, em si mesmo, o retorno. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. Ao sair de mim como um raio do sol, como uma correnteza de sua fonte, vocês permanecerão em mim, pois eu mesmo sou o raio que resplandece, a correnteza que é derramada do Pai. Dar é mais abençoado do que receber. Assim como eu irradio o Pai, assim também vocês me irradiarão. Então virem seus rostos para mim para que eu os possa virar para o mundo. Vocês estarão tão distantes de seus próprios caminhos que eu posso colocá-los no caminho em que estou".
Esse é um novo mistério, inconcebível para meras criaturas: que mesmo a distância de Deus e a frieza da reverência são uma imagem e uma semelhança de Deus e da vida divina. O que é mais incompreensível é, de fato, a realidade mais verdadeira: precisamente por não ser Deus vocês se assemelham a Deus. E precisamente por estarem fora de Deus vocês estão em Deus. Pois estar em confronto com Deus é, em si mesma, uma coisa divina. Como uma pessoa que é incomparável você reflete a unicidade do seu Deus. Pois na unidade de Deus, também, encontram-se distância e reflexão e eterna missão: Pai e Filho confrontam-se um ao outro e no entanto são um no Espírito e na natureza que os sela em conjunto. Não apenas a Imagem Primeira é Deus, mas também a Semelhança e a Imagem Refletida. Não apenas a unidade é incondicional; é também divino ser Dois quando há um Terceiro que os reúne. Por essa razão o mundo foi criado nesse Segundo, e nesse Terceiro ele permanece em Deus.
O sentido da criação, porém, permanece inexplicável na medida que o véu cobre a eterna Imagem. Essa vida não seria senão destino, esse tempo apenas sofrimento, todo amor apenas decadência, se o pulso do Ser não palpitasse na eterna e triuna Vida. Somente assim a fonte da vida começa a jorrar também em nós: ela fala da Palavra em nós, torna-se ela própria Palavra e Linguagem, e comunica a nós – como uma saudação de Deus – a tarefa de proclamar o Pai no mundo. Somente assim a maldição da solidão é resolvida: pois estar-em-confronto é, em si mesmo, divino, e todos os seres – homem e mulher e animal e pedra – não são, por sua particular existência, excluídos da vida comum; são, ao contrário, orientados um ao outro em sua própria forma. Não estão trancados em uma prisão escura em que seus lamentos oprimidos procuram escapar para o ilimitado: ao contrário, como mensageiros de Deus, realizando um trabahlho de finalização resplandescente, eles são envolvidos noo Corpo único cuja Cabeça repousa no seio do Pai.
Bata, então, Coração da existência, pulso do Tempo! Instrumento do amor eterno! Você nos enriquece e, novamente, nos empobrece. Você nos atrai para si apenas para, então, se retirar de nós. Mas, através dos movimentos das marés, permanecemos o ornamento festal que você veste. Majestosamente você urra sobre nós; reduz-nos ao silêncio com suas estrelas; preenche-nos até nos inundar, até a própria borda, e nos esvazia até a sujeira, até o ponto de colapso. E se urra ou mantém-se em silêncio, se preenche ou esvazia, permanece o Senhor e nós seus servos.


(traduzido livre e apressadamente do inglês, e comparado com o original alemão sem o cuidado devido. Ainda assim, e apesar da linguagem às vezes densa e quase impossível de traduzir, esse livro de von Balthasar mereceria uma boa edição em português. Segundo sua editora, há uma edição portuguesa de 1967, à qual não tive acesso e continuo procurando. E quem sabe um dia possa haver uma edição brasileira dessa pequena obra-prima da literatura cristã do século XX)

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