retirado de The God question and modern man, de Hans Urs von Balthasar
A protestantização do mundo equivale à sua secularização. Admissivelmente, secularização significa também defecção; as pessoas se afastam da verdadeira fonte de luz, o efeito da irradiação da Igreja é diminuído, seus sacramentos e bênçãos se perdem. E, certamente, a crescente uniformidade da consciência da humanidade pode ser "explicada" também sem o cristianismo, simplesmente através de fatores históricos imanentes, embora o cristianismo possa ser contado entre eles. Essa tendência à secularização tem um claro viés anti-cristão, na mesma medida que a unidade da religião "natural" da humanidade proposta pelo Iluminismo e Idealismo era inequivocamente também oposta ao cristianismo, pois o que devia ser "iluminado" era, alegadamente, o desentendimento confessional, para não dizer a mentira clerical. Esse elemento polêmico era uma parte do desenvolvimento da unidade da humanidade, e permanecerá enquanto o cristianismo existir em sua forma eclesiástica.
Será bem mais fácil para o secularismo se reconciliar com aquelas formas de cristianismo que romperam com a unidade da Igreja. É só pensarmos em Schleiermacher, Hegel e todo o mundo de seitas e igrejas congregacionais da civilização anglo-saxônica: elas são muito mais facilmente absorvidas pelo "mundo" do que a forma católica. E todas essas formas fragmentárias de cristianismo se movem irrevogavelmente de uma forma de unidade para outra: rompendo ou se colocando fora de uma, são atraídas pelo magnetismo da outra. Elas se entendem entre si no plano da humanidade, dissolvem-se no liberalismo e relativismo. Mesmo uma forma virulenta como o barthianismo confessa abertamente que seria mais fácil se entender com Moscou do que com Roma. De fato, aquelas igrejas cristãs que se desligaram da unidade católica mais ou menos sob protesto, são os elementos que mais se aproximam da Igreja una, por isso elas mostram mais claramente o elemento polêmico desta última. Poder-se-ia até mesmo mostrar que essa migração protestante da unidade católica foi o fator que mais contribuiu efetivamente para a formação da unidade em torno do centro da idéia humanista, pela qual a idéia da unidade da Igreja foi exportada (e, assim, secularizada) para a esfera da cultura, ética e religião mundanas. As várias formas de protestantismo devem justificar constantemente sua defecção da unidade católica, tanto diante de si mesmas como diante do mundo; por isso, não podem senão disputar e protestar, já que de outro modo se destruiriam a si mesmas. Sendo formas de cristianismo, elas derivam da unidade católica: não podem negar sua origem histórica e fugir dela como de algo que acabou-se de uma vez por todas. Uma vez que, por outro lado, elas são formas não-católicas de cristianismo, a necessidade de sua defecção da unidade católica deve sempre ser incluída como um tema do seu credo e de sua teologia.
Esse problema limítrofe entre Igreja e mundo também combina o conteúdo cristão relativamente mais forte que é passado ao mundo como protesto mais forte contra o que foi abandonado; daí que, a partir desse ponto de superioridade, a relação entre as duas unidades pode ser vista mais claramente. Pois são, de fato, duas e, hoje mais do que nunca, esse fato é o escândalo da Igreja Católica. Pois, ao contrário de qualquer outro fenômeno religioso, ela se recusa a ser incluída sob a unidade do problema da humanidade. Ela não será relativizada: em meio ao tempo e à história ela faz essas pretensões absolutas. Aqueles que são simpáticos a ela tentam uma persuasão cuidadosa, enquanto ao mesmo tempo dela roubam suas riquezas, que eles próprios pretendem estar aptos a utilizar. São os tesouros de sua espiritualidade e misticismo (Otto, Nigg e autores espirituais do Alto Anglicanismo), de suas formas externas (Maurras, Schweitzer, os ritualistas e as Ordens anglicanas); tudo é tirado dela, exceto aquela insustentável pretensão da verdade absoluta. Com isso ela se torna cada vez mais isolada e solitária. Pois mesmo a Rússia e os Estados Unidos estão apenas relativamente em oposição: se as constelações políticas mudarem, eles podem se reconciliar da noite para o dia. O Extremo Oriente não confronta as grandes potências com exigências absolutas, mas somente com uma sabedoria mais profunda, respondendo à questão "O que é o homem". Apenas a unidade católica não cabe na humanidade. Até recentemente ela havia representado o princípio da unidade do mundo; agora, no decorrer de alguns séculos, parece ter-se tornado a antagonista, o "estraga-prazeres" que perturba a paz da nova unidade. Entre um e outro encontro, os grandes concílios ecumênicos protestantes dissolvem grandes tensões, digerem divergências ainda maiores, conbinando todas as matizes de cristianismo, do mais liberal ao mais ortodoxo. Fazendo isso, eles trazem à luz como nunca antes, o isolamento da Igreja Católica, que se separa não apenas desses ramos do cristianismo, mas também da humanidade como um todo, com a qual todos estes estão em contato. Mesmo um entendimento entre os vários protestantismos e a ortodoxia russa é sempre possível e na verdade, em grande parte em andamento. Assim, será em última análise o cristianismo protestante que terá o mérito de ter decisivamente estimulado, ou de fato forjado a unidade do mundo através de sua adaptabilidade liberal que abraça tudo. Ele se tornará a religião cosmopolita, em contraste com a qual a Igreja Católica parecerá provinciana.
E, no entanto, essa tensão aguda, trazida especialmente pelo protestantismo, apenas dramatiza novamente uma antiga situação que sempre existiu, e que Santo Agostinho havia estabelecido em sua Cidade de Deus e em toda a sua obra apologética e polêmica. A teologia moderna a expressa através da fórmula "Duas sociedades perfeitas", e assim colocam em oposição as duas totalidades em toda finalidade.
(...)
Não é bastante, para o homem, ficar do lado da decisão de Deus e de Cristo meramente "pela fé", aceitá-la e nela confiar sua decisão, por seu lado, com toda a sua liberdade. As denominações protestantes inclinam-se em direção a essa forma insuficiente. A Igreja Católica exige que a decisão humana deva ser uma profissão visível e aberta, não apenas por palavras e crenças. Isso se segue do fato de que Cristo é não apenas homem, mas também Deus, o Filho eterno do Pai eterno. Como tal, Ele é a nova Cabeça da humanidade, que não pode ser idêntica à unidade da consciência natural-histórica da humanidade. Nenhum livro, por mais sagrado que seja, seria suficiente para lembrar o mundo disso, nem qualquer ensinamento ou missão doutrinária, ainda que exaltada e zelosa. Nada, senão a unidade estabelecida na humanidade pelo próprio Jesus Cristo, poderia bastar, uma unidade que torna o homem consciente da transcendência do novo centro em seu nome e como sua garantia.
A tarefa que Cristo deixa, então, aos discipulos, é extremamente precária. Significa que eles mesmos, como simples seres humanos, devem representá-lo, o Deus-homem, entre seus semelhantes. Eles são obrigados a permanecer à distância da consciência geral da humanidade, não por conta de seus próprios talentos e conquistas, mas somente por causa da fé e da obediência a eles confiadas. Essa atitude despertou a fúria dos imperadores romanos a um nível que os cristãos tiveram de pagar por ela com suas vidas. E nossos cultos intelectuais contemporâneos se perguntam como a consciência da humanidade pode tolerar essa arrogância que contradiz toda a filosofia.
quarta-feira, 4 de março de 2009
Protestantismo e secularização
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